Na primeira linha das anotações, aparecem, nessa ordem, o número do livro lido, a data em que terminei a leitura, o título do livro e o nome do autor.
870 (12-05-2023) – Redemunho – José Vecchi de Carvalho. Itjaí, SC, Editora IpêAmarelo LTDA, 2023. 147 p.
Esse romance é um monólogo reflexivo, introspectivo, filosófico comparável ao “As brasas”, de Sándor Márai, escritor húngaro.
Domício, o narrador, atrás de uma janela gradeada repassa sua vida: “... a realidade me devolveu, como prêmio ou punição, o tempo e a possibilidade de flutuar em suas bordas, para observar de longe como eu sempre quis e me dedicar aos meus devaneios e às minhas lucubrações”. Morre Bino num dia que começou todo errado pela longa espera na antessala de um consultório médico e, mais tarde, pela voz de Kelly soluçando ao telefone. É a realidade invadindo seu desejo de solidão, de distanciamento, de se perder em sonhos. Ah! Existe Kelly, dona Áurea, dona Cenira, o senhor Afrânio surgindo nos momentos de contemplação na janela da água-furtada, no sobrado e na casa dos pais. Kelly vendia, na rua, seus quadros e entrou na sua vida aos poucos, mas nunca se instalou pela incapacidade de Domício de assumir a vida a dois, e pelas idas dela mais frequentes que as vindas. Kelly era otimista, decidida; Domício, sorumbático, hesitante. Às vezes, pensava em largar seu trabalho no escritório de contabilidade em que Diana, a linda filha do dono, insistia em seduzi-lo. Mas havia Kelly, os filhos, os sonhos e o salário indispensável. A realidade é cada vez mais acintosa, ocupando seus pensamentos, invadindo seus sonhos, fazendo de sua vida um redemunho.
Enredo muito bem construído, reflexões extraordinárias,
grande literatura!
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