domingo, 11 de dezembro de 2022

Diário da Navegação: Teotônio José Juzarte – Jonas Soares de Souza e Miyoko Makino (orgs.)

 Na primeira linha das anotações, aparecem, nessa ordem, o número do livro lido, a data em que terminei a leitura, o título do livro e o nome do autor. 

  


863 (17-10-2022) – Diário da Navegação: Teotônio José Juzarte – Jonas Soares de Souza e Miyoko Makino (orgs.)

            Este é o diário escrito por Teotônio José Juzarte, comandante da monção, que partiu de Araritaguaba (Porto Feliz, SP) em 13-04-1769 com destino à Praça d’Armas de Nossa Senhora dos Prazeres do Iguatemi (Iguatemi, MS), onde chegou em 12-06-1769 (dois meses de viagem fluvial). Juzarte permaneceu no Forte do Iguatemi explorando os rios e a região até maio de 1771 quando adoentado pela malária retornou a Araritaguaba. A viagem durou, portanto, mais de dois anos.

            Tendo partido em abril, princípio do período de seca, a expedição enfrentou os riscos de inúmeras corredeiras, os trabalhos de atravessar por terra algumas cachoeiras, e os percalços de tempestades nos rios Tietê, Paraná e Iguatemi.

            A expedição era composta de 36 canoas escarvadas em um único tronco, algumas tinham comprimento de até 16 m e largura de 1,5 m. A monção levava mais de oitocentas pessoas entre homens, mulheres, rapazes, crianças, soldados e mareantes, e animais domésticos para consolidar a povoação do Iguatemi e impedir o avanço dos espanhóis além desse ponto da fronteira oeste brasileira.

            O forte desenhado na forma de heptágono não defendia nem os povoadores, pois inacabado como estava, apenas a capela e algumas paredes se mantinham em pé. A pólvora era guardada na igrejinha.  As pessoas passavam de um lado para o outro da praça sem proteção ou vigilância. Os colonos eram frequentemente atacados por índios, limitando ou impedindo a produção de comida. A alimentação era racionada e a fome estava sempre presente, facilitando a morte por doenças diversas.  A caça e a pesca amenizavam a escassez de carne, mas eram perigosas pela presença dos indígenas.

            A Praça do Iguatemi, instalada em 1767, resistiu até 27-10-1777 quando D. Agostin de Penedo e uma considerável força do Paraguai atacaram a guarnição derrotando-a e oferecendo a seu comandante o vigário Antônio, honrosa capitulação.

segunda-feira, 24 de outubro de 2022

Leny e o Informante – Erly Teixeira

Na primeira linha das anotações, aparecem, nessa ordem, o número do livro lido, a data em que terminei a leitura, o título do livro e o nome do autor. 


853 (17-05-2022) – Leny e o Informante – Erly Teixeira

            Leny é soterrada num poço de garimpo, contudo as mãos fortes de Moisés a libertam. O dono do garimpo, Tonzé, seu amante, que a trouxera de São Paulo, há um ano, com promessas de amor, ouro e joias, descarta-a e ela aceita abrigo no aconchego de Moisés. O casal é expulso da lavra. Moisés sonha bamburrar e vai garimpar no Rio do Rato, afluente do Rio Tapajós, no Pará. Leny, aos 23 anos, linda e desejada, em 1986, não encontra emprego em Gurpião, norte de Goiás, e se vende como garota de programa aos donos de garimpo, na Brasília, uma furna de pedreira, a zona da cidade.

            Tonzé, em 1969, frequenta o curso de cabo no Tiro de Guerra e o ensino médio e é cooptado pelo PCdoB para combater na guerrilha do Araguaia. Antecipadamente, o tenente Ramos, comandante do TG, oferece-lhe o posto de cabo, convence-o a agir como informante do Exército e o auxilia a se inscrever no partido comunista e a participar de treinamento em São Paulo.

            O Destacamento C, da guerrilha, é muito atuante na região de Mutum, no sudeste do Pará. Tonzé, o espião, recém-chegado à guerrilha, em 1970, participa do Grupo de Apoio aos Posseiros, de arma na mão, contra grileiros, é enfermeiro quando solicitado, distribui remédios nos povoados, é professor nas escolas, é regatão, mascate, nos fins de semana nos lugarejos às margens dos rios Araguaia e Xambioá e de alguns igarapés. O treinamento na selva é intenso, caminhando na mata, cultivando roças, construindo depósitos de alimentos e praticando tiro e ataques ao inimigo. Todas as atividades e os codinomes dos visitantes e companheiros guerrilheiros são delatados por ele ao senhor Lucas, agente do Exército, na mercearia Almenara.

            Os dois primeiros anos são de férias no paraíso. Tonzé conhece o amor na selva e nas praias do Rio Araguaia, visita as bases guerrilheiras reformando as instalações, banhando-se nas cachoeiras do caminho e nas praias do Rio Xambioá. Torna-se um mateiro e guerrilheiro experiente e reconhecido.

            Os militares executam várias operações frustradas para exterminar a guerrilha. Batalhas esparsas ocorrem nesse período com poucas baixas de ambos os lados. As Forças Armadas desconhecem os guerrilheiros, seu armamento, suas táticas de guerra, os acampamentos e seus colaboradores. Sua maior fragilidade é não conhecer a selva. Mas aos poucos ganham experiência e disposição para fustigarem os guerrilheiros no seu ambiente.

            A Operação Sucuri colhe informações sobre os guerrilheiros, seus acampamentos, armazéns de alimentos e de munição, e sobre sua rede de colaboradores. Quando os militantes comunistas a descobrem, matam alguns agentes militares infiltrados, tentam assassinar Tonzé, descoberto como informante, mas é tarde. Em outubro de 1973, inicia-se a Operação Marajoara, ou a caçada aos combatentes do PCdoB. Os militares penetram na floresta e atacam os guerrilheiros nos acampamentos e nas trilhas guiados por Tonzé, que escapa dos insurgentes e se reincorpora ao Exército, e outros mateiros.  Os colaboradores ou amigos da guerrilha são trancafiados na base militar de Xambioá. Os militantes comunistas não podem caçar porque o barulho dos tiros atrai os militares, não podem fazer fogo para preparar as refeições porque a fumaça os denuncia, os depósitos de alimentos são destruídos pelos soldados, e não há posseiros amigos. Aonde chegam em busca de comida são recebidos com rajadas de metralhadora; nas trilhas, antes conhecidas apenas por eles, são alcançados e mortos pelas patrulhas, algumas comandadas por Tonzé promovido a sargento; até nas fontes de água são caçados como animais. Falta-lhes tudo: alimento, roupa, remédio, armas e liderança. Nenhum guerrilheiro resta vivo no Araguaia em 1975, cinquenta e oito são mortos na selva; três, em aparelhos destruídos ou sob tortura; dezessete fogem da guerrilha ou são presos, mas sobrevivem; dezenas de colaboradores ou amigos, nos povoados, são presos e torturados, e cinco, mortos. Morrem dez militares e nove são feridos.

            Acabada a guerrilha, Tonzé se adianta ao Major Curió e vai para o garimpo de Serra Pelada. Retorna a Gurpião quando acaba o ouro no seu terreno para encontrar sua família destruída, não é recebido pelo pai. Compra fazenda e lavra e vai a São Paulo em busca de equipamento para o garimpo. Encontra Leny e a atrai com promessas vãs, mas em pouco tempo a abandona.

            Moisés lavra ouro em terra indígena invadida, em Itaituba-PA, no garimpo de Dasquanta; trava batalhas contra os índios mundurukus e escapa da destruição da mina pelos helicópteros da Base Aérea do Cachimbo. Retorna a Gurpião, agora no estado de Tocantins, atendendo ao chamado do amor por Leny.

Leny e o Informante é um romance histórico na segunda parte, em que os personagens se intrometem ficticiamente na história da Guerrilha do Araguaia, ilustrando-a ou ocupando lacunas. As outras seções são inteiramente fictícias, mesmo envolvendo fatos ou figuras conhecidos, contemporâneos à obra.

terça-feira, 11 de outubro de 2022

Haicais-sexto volume – Wantuelfer Gonçalves

Na primeira linha das anotações, aparecem, nessa ordem, o número do livro lido, a data em que terminei a leitura, o título do livro e o nome do autor. 


862 (08-10-2022) – Haicais-sexto volume – Wantuelfer Gonçalves

     Este volume de Haicais, do Wantuelfer Gonçalves, é tão bom quanto os outros, é ótimo! São mais de duzentos haicais intitulados e distribuídos em vários temas: os irreverentes, os políticos, os filosóficos, os naturais, os poéticos, os temporais, os musicais, e os românticos. O estilo do autor é tão fácil, claro e conciso que ao leitor podem passar desapercebidas as dificuldades de escrever “um pensamento completo em tercetos de dezessete pés métricos, acrescidas, ainda, pelas rimas alternadas no primeiro e terceiro versos e pelas rimas lineares no segundo”. Mas a complexidade “prolonga-se com a titulação de cada haicai e com a separação deles em blocos de mesmo sentido”.  Wantuelfer Gonçalves vence esses obstáculos com sua grande habilidade poética e nos oferece haicais iluminados como os apresentado abaixo.


FÚRIA

O mar no rochedo

Se arrebenta, mas o enfrenta

Sem demonstrar medo.

 

AMPLEXO

Vem cá meu amor,

Abraça-me e faça-me

Cada vez melhor.

 

BEIJA FLOR

Eu, cuitelinho

Aqui, querendo de ti

Só um beijinho.

 

MERDA

Pássaro pedrês

Fez, sobre o meu fez,

Toda a sua fez. 


CONVITE

Vem logo Maria,

Anda. Estendi na varanda

A rede macia.


segunda-feira, 3 de outubro de 2022

Violeta – Isabel Allende

 Na primeira linha das anotações, aparecem, nessa ordem, o número do livro lido, a data em que terminei a leitura, o título do livro e o nome do autor. 


861 (20-09-2022) – Violeta – Isabel Allende

            Violeta nasceu em 1920 num dia tormentoso com relâmpagos, trovões, tempestade e falta de eletricidade. Nesse ano a gripe espanhola invadiu o Chile dizimando parte de sua população. O pai de Violeta, prevenido, antes que a doença chegasse a Santiago, estocou a casa grande e acolhedora, circundada de jardins e pomares, localizada em área pouco habitada ao sul da capital, com alimentos, tecidos, material escolar e tudo o necessário para a família se manter isolada por muito tempo. E assim ninguém se contaminou. Os homens, irmãos de Violeta, menos José Antônio que ajudava o pai na contabilidade de seus negócios lícitos e ilícitos, foram enviados para a fazenda da família na Patagônia.  A gripe passou, a família de Violeta prosperou até que a bolsa de Nova York se implodiu em 1929 e destruiu a fortuna do clã Del Valle. Transformaram-se em pobres devedores e se abrigaram na casa emprestada de amigos no sul do Chile, na vila de Nahuel, mas longe dos credores. A esse período, Violeta e os parentes chamaram de desterro.

            Violeta casa-se com Fabian, mas logo depois o abandona por um aviador de aeronaves fluviais, Julián, que entre voos regulares fazia viagens anormais, principalmente ao fim da segunda guerra, transportando nazistas, e drogas quando a máfia e os cartéis ganharam poder nos mundos dos negócios e da política. Mas esse homem a fazia sorrir e lhe tocava todos os milímetros e notas de seu desejo sexual.  Teve dois filhos com ele e viveram felizes nos intervalos entre uma viagem e outra até que recebeu os primeiros tapas e soube de suas amantes.  Sofreu por seu filho Juan Martín perseguido pelos militares, do qual ficou sem notícias por longo tempo, pelo desaparecimento de Torito, que protegia seu filho na fuga, e pela morte de sua filha, após dar à luz ao seu neto Camilo.

            Violeta sai da humilhação de ver sua família perseguida pelos cobradores, ajudando José Antônio a criar uma empresa de construção de casas de madeira, cujo sucesso permitiu pagar as dívidas negociáveis. A violência amorosa com Julián acaba quando ela o expulsa de casa e com o distanciamento, mas ela participa dos movimentos para garantir os direitos da mulher e cria uma fundação para proteger as violentadas. Não tem notícias do filho desaparecido e nem de Torito, mas exige dos militares, em fins da ditadura, que os mortos sejam identificados.

            Em 2020, Violeta faz cem anos escondendo-se da nova epidemia no querido “desterro”, a vila de Nahuel, e escrevendo no computador, porque suas mãos não conseguem segurar a caneta, mensagens para o neto Camilo, padre, que ela espera ver unido a sua secretária, Mailén, na fundação, e para o filho Juan Martín residente na Noruega.  

            É um bom livro no ótimo estilo de Isabel Allende que repassa a história do Chile nos Séculos XX e XXI.

quinta-feira, 1 de setembro de 2022

Araritaguaba: o Porto Feliz – Jonas Soares de Souza (org.)

Na primeira linha das anotações, aparecem, nessa ordem, o número do livro lido, a data em que terminei a leitura, o título do livro e o nome do autor. 


860 (27-08-2022) – Araritaguaba: o Porto Feliz – Jonas Soares de Souza (org.)

            As monções, grandes expedições com oitocentas ou até mais de mil pessoas, partiam de Araritaguaba, lugar onde as araras comem areia, hoje Porto Feliz-SP, para consolidar a fronteira brasileira no Forte Iguatemi, próximo à cidade de Iguatemi-MS, ou em busca de ouro na região de Cuiabá-MT. As embarcações eram principalmente grandes canoas escavadas em um tronco de peroba, tinham 16,5 metros de comprimento e 2,80 m de largura no centro. Transportavam 5.840 kg de carga, mantimento para oito tripulantes e até passageiros.  As expedições iniciavam as viagens pelo Rio Tietê, se estivesse cheio, transpunham apenas dois saltos, depois navegavam pelo Rio Paraná até o afluente Rio Iguatemi, à direita, que subiam até o forte do mesmo nome localizado na fronteira do Mato Grosso do Sul, Paraná e Paraguai, em viagem de dois a três meses. Se o destino da viagem era a região de Cuiabá (3.500 km), as dificuldades e o tempo de navegação eram maiores. Desciam o Rio Tietê, se estivesse vazio, transpunham dezenas de corredeiras, diversas cachoeiras, continuavam rio abaixo no Paraná, mais largo e sujeito a perigosas tempestades, subiam o Rio Pardo, afluente à direita e ao norte do Iguatemi, até o varadouro de Camapuã de 15 km em que as embarcações e as cargas eram transportadas por terra para deixarem a vertente do Paraná e entrarem na do Rio Paraguai. O primeiro afluente do Rio Paraguai, o Rio Camapuã era raso e as canoas eram puxadas em grande parte roçando as pedras ou o lodo do rio até próximo a sua foz, desaguando no Rio Coxim. Desciam o Rio Coxim, difícil pelas inúmeras corredeiras, entravam no Rio Taquari descendo-o, evitando se perderem no pantanal mato-grossense, até atingirem o Rio Paraguai.  Subir este rio era difícil, pois as zingas, varas que empurravam as canoas, na época das chuvas não atingiam o fundo do rio e era necessário remar com denodado esforço. As margens dos rios Taquari e Paraguai eram infestadas pelos temidos guerreiros Guaicurus que atacavam com seus cavalos, nas paragens das tardes, antes de anoitecer. Deixando o Rio Paraguai, subiam o Rio Porrudos em cuja margem habitavam os Paiaguás, ferozes guerreiros das águas, e depois pelo Rio Cuiabá até a vila do mesmo nome.

            O livro relatas diversas expedições que fracassaram por insurgência na tripulação; desastres ao enfrentar saltos e corredeiras que destruíam as canoas; doenças que acometiam a monção; e por ataques dos índios Guaicurus e Paiaguás. Descreve também a chegada a Araritaguaba de expedições com muito ouro, movimentando a economia da vila. Assim, parte da história de Porto Feliz e do Brasil está amalgamada às aventuras das monções.


terça-feira, 2 de agosto de 2022

As brasas – Sándor Márai

Na primeira linha das anotações, aparecem, nessa ordem, o número do livro lido, a data em que terminei a leitura, o título do livro e o nome do autor.  

 


858 (15-07-2022) – As brasas – Sándor Márai

           Li a versão traduzida do italiano para o português, mas antes o livro foi vertido do húngaro para o italiano. O romance preserva a imagem do leste europeu do fim do Século XIX descrita por Tolstoi, Gogol, Sienkiewicz entre outros.  A história dessa novela está amarrada à caçada ocorrida no dia dois de julho de 1899 quando Konrad, o melhor amigo de Henrik, às suas costas, apontou a arma para matar seu maior amigo, mas esposo da mulher que ele amava.  Henrik sentiu o gesto, não o viu, mas percebeu quando o ex-amigo desistiu de matá-lo e retornou com o fuzil para a posição de espera, apontando-o para o chão.  No dia seguinte Henrik e Krisztina, sua esposa, chegam separados, com pequena diferença de tempo, à casa de Konrad e ficam sabendo que ele viajou para o sudeste asiático em missão militar. Krisztina diz saindo:

– Era mesmo um covarde!

Esta exclamação referia-se a sua falta de coragem para matar o amigo, ou para levá-la consigo para o Oriente?  Henrik refugiou-se no pavilhão de caça e nunca mais falou com Krisztina que continuou vivendo no castelo até sua morte doze anos depois.

            Quarenta e um anos após a fuga de Konrad, Henrik recebe um bilhete dele solicitando dialogarem.  Henrik o recebe na ala nobre do castelo com a cortesia devida a um visitante ilustre. Após o jantar, Henrik quer respostas para suas dúvidas e avança até a madrugada em um monólogo em que reflete e filosofa sobre a amizade, a fidelidade e a traição. Também recorda a infância e a juventude com o amigo na escola militar de Viena, o casamento e a viagem de um ano pelo mundo e sua vida até esse último encontro com Konrad.  Seu interlocutor apenas concorda, pois os argumentos do amigo abarcam todas as possíveis respostas. Henrik apenas repete os argumentos que durante quarenta e um anos ocuparam seus pensamentos e lhe oferecem todas as explicações.  A vingança verbal pela qual esperou por tão largo tempo, Henrik a desfaz concluindo que ele e Konrad traíram Krisztina, mais do que ela a eles. Konrad por abandoná-la e aos seus sonhos, e ele, Henrik, por não a buscar para ouvir seus argumentos nos doze anos anteriores a sua morte.

            Muito bom livro! 

Memórias de um pesquisador no cárcere – Pery Francisco Assis Shikida

Na primeira linha das anotações, aparecem, nessa ordem, o número do livro lido, a data em que terminei a leitura, o título do livro e o nome do autor.  

 


859 (27-07-2022) – Memórias de um pesquisador no cárcere – Pery Francisco Assis Shikida

        Pery Shikida, economista e professor da Unioeste-Toledo, PR e seu grupo de pesquisadores: orientandos da pós-graduação, advogados, e outros profissionais entrevistam presidiários condenados por crimes econômicos em vários cárceres nas regiões do país. Esse é um mundo pouco conhecido até para os pesquisadores no início dos trabalhos. Pery coleciona os casos engraçados e dramáticos ocorridos durante as entrevistas e os publica na forma de contos pequenos no seu livro que é muito esclarecedor e muito bom de ler.


terça-feira, 28 de junho de 2022

O avesso da pele – Jeferson Tenório

 Na primeira linha das anotações, aparecem, nessa ordem, o número do livro lido, a data em que terminei a leitura, o título do livro e o nome do autor. 

857 (26-06-2022) – O avesso da pele – Jeferson Tenório

            Este livro foi o vencedor do prêmio Jabuti de 2021, é bem escrito, é reflexivo, é introspectivo.  O filho recorda o pai negro, professor do ensino público fundamental e médio, morto há algum tempo. Descreve as diversas passagens de discriminação racial vividas pelo pai, o seu relacionamento difícil com a esposa, as dificuldades de ministrar aulas para alunos desmotivados, e o seus sentimentos de humilhação, de cansaço, de desamor e de frustação que se escondem atrás da pele. Narra a alegria do pai ao conseguir atrair a atenção dos alunos para a história de Raskólnicov, personagem principal do romance Crime e Castigo, de Dostoiévski. A última abordagem policial que o pai sofreu é mais detalhada, pois o autor relata a vivência do policial que vê o colega amigo ser assassinado sem que os autores do crime sejam encontrados, e é ele quem vai revistar o pai do narrador na saída do colégio, num bairro pobre de Porto Alegre. 

A leitura é pouco atraente até a metade do livro, depois é instigante.


segunda-feira, 13 de junho de 2022

Um Ponto de Fuga – Marília Nacif Barbosa

 Na primeira linha das anotações, aparecem, nessa ordem, o número do livro lido, a data em que terminei a leitura, o título do livro e o nome do autor. 


856 (13-06-2022) – Um Ponto de Fuga – Marília Nacif Barbosa

 

            O livro impressiona, primeiro, pelo nome da autora Marília Nacif Barbosa, encimando a capa muito bonita, muito bem desenhada: uma passagem ladeada por muros seculares envelhecidos pela neblina, atravessando um vale oculto em densa névoa. Depois, os poemas encantam pela sensibilidade da autora como nos versos abaixo.

 

           

 

 

Eternidade


Apenas um instante,

um minuto, nada mais...

Se era uma tarde fria,

Se era noite ou se era dia,

não me lembrarei jamais...

Você falava? O que dizia?

nada, eu não mais ouvia...

Naquele momento estranho,

houve um milagre

e houve um sonho.

 

Depois do sonho, a plenitude.

Depois do milagre, a eternidade.

 

Outros poemas belíssimos são:

“Numa Noite Fria”, página 32;

“Aquela Palavra”, página 38;

“Estrela Fugidia”, página 40;

“A Mansão”, página 52;

“A Um Deus”, página 55;

“Carnaval Espiritual”, página 57.

 

É muito bom ler e reler esse livro!      

quinta-feira, 9 de junho de 2022

Boa Ventura! A corrida do ouro no Brasil, 1697-1810 – Lucas Figueiredo

 Na primeira linha das anotações, aparecem, nessa ordem, o número do livro lido, a data em que terminei a leitura, o título do livro e o nome do autor. 

855 (06-05-2022) – Boa Ventura! A corrida do ouro no Brasil, 1697-1810 – Lucas Figueiredo

            Enquanto os espanhóis raspavam o ouro dos monumentos astecas e incas e achavam a montanha de prata de Potosi em 1545, os portugueses e brasileiros entravam Brasil adentro escravizando índios e buscando ouro. As expedições partindo de Pernambuco, da Bahia, do Espírito Santo, do Rio de Janeiro e principalmente de São Paulo alargaram as fronteiras do Brasil e encontraram montanhas de ouro nos córregos e terrenos de aluvião, inicialmente na capitania de Minas Gerais na década de 1690, depois em Mato Grosso, Rondônia e Goiás.

            Lucas Figueiredo faz um trabalho minucioso, detalhado e extensamente documentado da corrida do ouro, segurando o leitor atento e curioso às narrativas empolgantes da descoberta da prata em Potosi; de pouco ouro em São Paulo, em 1562; de muito ouro em Minas Gerais, em 1693; da Guerra dos Emboabas (1706-1709) em que os mineradores de Minas Gerais expulsaram os paulistas; da criação da capitania de Minas Gerais, em 1720; das monções, grandes expedições levando, às vezes, mais de mil pessoas em viagens de três a sete meses em direção às minas da região de Cuiabá; os enfrentamentos com os índios Guaicurus e Paiaguás; as guerras travadas entre os reinos africanos de Daomé, Iguira, Wassa, Akien e Adansi, em que os prisioneiros derrotados eram vendidos como escravos na fortaleza de São João Batista aos traficantes portugueses e brasileiros; o transporte dos escravos nos “tumbeiros”, ou navios negreiros, carregados no porto de Ouidá.

            Lucas Figueiredo revela os horrores do Terremoto de Lisboa, 9 graus na escala Richter, um dos mais mortíferos da história. Era o dia de Todos os Santos, 1o. de novembro de 1755, as igrejas estavam cheias às 9:40 horas da manhã quando o abalo aconteceu. Os que sobreviveram ao solavanco correram para o porto e áreas descobertas, viram as águas do Rio Tejo secarem e depois o tsunami, ondas de vinte metros de altura avançar rio adentro, inundar 250 metros de Lisboa arrastando barcos, casas, destroços, carruagens, vivos e mortos. Na vazante carregaram tudo de volta. Nos sete minutos que durou o fenômeno 15.000 pessoas morreram. Os incêndios provocados, em grande parte pelas velas acesas nas igrejas e casas, lançavam labaredas avistadas a quilômetros pelo rei d. José que estava com a família em Belém. Lisboa ardeu durante seis dias. Completando a desgraça não faltaram os saqueadores, assaltantes, estupradores e assassinos. “Quem escapou à ira da natureza e à sanha dos homens teve de lutar depois contra a fome e a peste. E contra o medo”.

            A derrama era a cobrança da parte do quinto, que a partir de 1750 fora estabelecido em 100 arrobas (1474 quilos) de ouro, que não fora paga pela capitania em razão da queda na produção.  O visconde de Barbacena, Luís Antônio Furtado de Mendonça, assumiu o governo de Minas Gerais em julho de 1788 com “ordens de cobrar os quintos atrasados que somavam a exorbitância de 8,8 toneladas. Vinha aí mais uma derrama, possivelmente a pior de todas”. A reação a essa derrama até culminar na Inconfidência Mineira, em 1789, no desterro para a África dos conjurados que sobreviveram aos assassinatos e à três anos de prisão, e ao enforcamento de Tiradentes, em 1792, é brilhantemente descrita. “O martírio de Tiradentes certamente ensinou algo aos mineiros, mas também à Coroa.  Temendo novas revoltas, a derrama foi cancelada”.

            As relações de Portugal, comprador inconsequente, com a Inglaterra, vendedora agressiva, transferiram para esse país, apenas em 1738, 60% do ouro produzido no Brasil, 8 toneladas. Por outro lado, garantiu segurança à fuga da família real, chefiada por d. João VI, para o Brasil em 1808.

            O livro é muito bem escrito e repleto de curiosidades que conquistam o leitor desde as primeiras páginas.  855 (06-05-2022) – Boa Ventura! A corrida do ouro no Brasil, 1697-1810 – Lucas Figueiredo

 

            Enquanto os espanhóis raspavam o ouro dos monumentos astecas e incas e achavam a montanha de prata de Potosi em 1545, os portugueses e brasileiros entravam Brasil adentro escravizando índios e buscando ouro. As expedições partindo de Pernambuco, da Bahia, do Espírito Santo, do Rio de Janeiro e principalmente de São Paulo alargaram as fronteiras do Brasil e encontraram montanhas de ouro nos córregos e terrenos de aluvião, inicialmente na capitania de Minas Gerais na década de 1690, depois em Mato Grosso, Rondônia e Goiás.

            Lucas Figueiredo faz um trabalho minucioso, detalhado e extensamente documentado da corrida do ouro, segurando o leitor atento e curioso às narrativas empolgantes da descoberta da prata em Potosi; de pouco ouro em São Paulo, em 1562; de muito ouro em Minas Gerais, em 1693; da Guerra dos Emboabas (1706-1709) em que os mineradores de Minas Gerais expulsaram os paulistas; da criação da capitania de Minas Gerais, em 1720; das monções, grandes expedições levando, às vezes, mais de mil pessoas em viagens de três a sete meses em direção às minas da região de Cuiabá; os enfrentamentos com os índios Guaicurus e Paiaguás; as guerras travadas entre os reinos africanos de Daomé, Iguira, Wassa, Akien e Adansi, em que os prisioneiros derrotados eram vendidos como escravos na fortaleza de São João Batista aos traficantes portugueses e brasileiros; o transporte dos escravos nos “tumbeiros”, ou navios negreiros, carregados no porto de Ouidá.

            Lucas Figueiredo revela os horrores do Terremoto de Lisboa, 9 graus na escala Richter, um dos mais mortíferos da história. Era o dia de Todos os Santos, 1o. de novembro de 1755, as igrejas estavam cheias às 9:40 horas da manhã quando o abalo aconteceu. Os que sobreviveram ao solavanco correram para o porto e áreas descobertas, viram as águas do Rio Tejo secarem e depois o tsunami, ondas de vinte metros de altura avançar rio adentro, inundar 250 metros de Lisboa arrastando barcos, casas, destroços, carruagens, vivos e mortos. Na vazante carregaram tudo de volta. Nos sete minutos que durou o fenômeno 15.000 pessoas morreram. Os incêndios provocados, em grande parte pelas velas acesas nas igrejas e casas, lançavam labaredas avistadas a quilômetros pelo rei d. José que estava com a família em Belém. Lisboa ardeu durante seis dias. Completando a desgraça não faltaram os saqueadores, assaltantes, estupradores e assassinos. “Quem escapou à ira da natureza e à sanha dos homens teve de lutar depois contra a fome e a peste. E contra o medo”.

            A derrama era a cobrança da parte do quinto, que a partir de 1750 fora estabelecido em 100 arrobas (1474 quilos) de ouro, que não fora paga pela capitania em razão da queda na produção.  O visconde de Barbacena, Luís Antônio Furtado de Mendonça, assumiu o governo de Minas Gerais em julho de 1788 com “ordens de cobrar os quintos atrasados que somavam a exorbitância de 8,8 toneladas. Vinha aí mais uma derrama, possivelmente a pior de todas”. A reação a essa derrama até culminar na Inconfidência Mineira, em 1789, no desterro para a África dos conjurados que sobreviveram aos assassinatos e à três anos de prisão, e ao enforcamento de Tiradentes, em 1792, é brilhantemente descrita. “O martírio de Tiradentes certamente ensinou algo aos mineiros, mas também à Coroa.  Temendo novas revoltas, a derrama foi cancelada”.

            As relações de Portugal, comprador inconsequente, com a Inglaterra, vendedora agressiva, transferiram para esse país, apenas em 1738, 60% do ouro produzido no Brasil, 8 toneladas. Por outro lado, garantiu segurança à fuga da família real, chefiada por d. João VI, para o Brasil em 1808.

            O livro é muito bem escrito e repleto de curiosidades que conquistam o leitor desde as primeiras páginas.  

terça-feira, 7 de junho de 2022

Cerveja Amarga – Rebeca Maia

Na primeira linha das anotações, aparecem, nessa ordem, o número do livro lido, a data em que terminei a leitura, o título do livro e o nome do autor. 


                                                            854 (01-05-2022) – Cerveja Amarga – Rebeca Maia

   

       Este é um livro pequeno de contos curtos sobre um grande tema, o amor. Esta é uma obra de contos pequenos, inteligentes e gostosos de ler. São onze contos tão diferentes como o amor pode ser. “Em ‘Cerveja Amarga’ as personagens passam por várias circunstâncias de amor, numa arquitetura experiencial que conjuga o amor por si, pelo mundo, pelo ser amado e, ao mesmo tempo, a respectiva decepção e repulsa por estas mesmas construções amorosas”.  Parecem-me duras essas últimas palavras do texto extraído do prefácio, por isso conto a historinha abaixo.

Comprei o livro no 2o. Feliv, era noite, fazia frio e as luzes estavam apagadas, exceto para palestra. Parei no estande da Rebeca Maia; no lusco-fusco, quase não a vi, folheei um dos livros e, porque me esqueci dos óculos, só consegui ler a palavra amor no prefácio.  Ela se aproximou, protegida por uma boina e um cachecol. Seu rosto era bonito e muito simpático; sorria.  Comprei o livro e pelo pequeno diálogo exigido pelo pagamento e pela dedicatória, soube que este é seu primeiro livro e que está escrevendo outro. Espero revê-la no próximo Feliv com outra obra tão boa quanto “Cerveja Amarga”.


sexta-feira, 6 de maio de 2022

Escravidão II – Laurentino Gomes

 Na primeira linha das anotações, aparecem, nessa ordem, o número do livro lido, a data em que terminei a leitura, o título do livro e o nome do autor.

852 (04-05-2022) – Escravidão II – Laurentino Gomes

            Neste livro espetacular, fartamente documentado e repleto de descrições pitorescas e inovadoras, Laurentino Gomes relata os eventos, relacionados à escravidão, acontecidos desde a corrida do ouro em Minas Gerais em fins do Século XVII até a chegada da corte de dom João VI ao Brasil em 1808.

            Uma informação curiosa reporta que tanto os inconfidentes mineiros que buscavam libertar o Brasil de Portugal, em 1789, quanto os líderes da independência dos Estados Unidos, em 1776, eram donos de escravos. A abolição da escravatura, em ambos os países, ocorreu décadas depois da independência, 1888, com a Lei Áurea, no Brasil e, em 1865, após a Guerra de Secessão, nos Estados Unidos.

            Um fato histórico relevante e pouco conhecido é o das monções, isto é, expedições para assegurar as fronteiras brasileiras no extremo oeste, nas divisas do Paraguai e da Bolívia com o Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, e para a lavra do ouro na região de Cuiabá. As monções percorriam um trajeto de quase 3.700 km, ao longo dos quais era necessário transpor 113 saltos, cachoeiras e corredeiras de dez diferentes rios, em viagens que duravam entre quatro e seis meses até chegarem às minas de ouro.

            “O mais impressionante e detalhado registro de uma dessas monções foi feito pelo sargento-mor Teotônio José Juzarte, à frente de uma frota de 36 canoas e cerca de oitocentas pessoas. Juzarte partiu de Araritaguaba, hoje Porto Feliz, SP, no dia 13 de abril de 1769 rumo ao longínquo Forte Iguatemi, na fronteira do Paraguai com o atual estado do Mato Grosso do Sul. A navegação de mais de mil quilômetros pelos rios Tietê, Paraná e Iguatemi demorou dois meses e dois dias”. Todos os trabalhos a bordo e os de remar, transpor cachoeiras carregando as canoas, às vezes por quilômetros, e recarregar as embarcações eram feitos pelos escravos.

            O tráfico de escravos ocorria pela prisão dos derrotados em batalhas travadas ou financiadas por traficantes brasileiros, portugueses, ingleses, franceses e outros contra os reinos africanos, ou pela venda aos traficantes dos prisioneiros das guerras entre reinos rivais. Num desses eventos, “Agaja, rei do Daomé, conquista o reino de Aladá e se consolida como grande fornecedor de cativos na costa da África”.

            Todos os aspectos da escravidão são descritos com maestria literária abordando os temas: trabalho, violência, a família escrava, os líderes masculinos e femininos, os quilombos, fugitivos e rebeldes, o medo da população branca das revoltas dos escravos, e os navios negreiros.

            Este é um livro brilhante, muito bem escrito, recheado de elementos históricos que tornam sua leitura muito agradável.


terça-feira, 29 de março de 2022

Capitólio: Genealogia e Registros Históricos – Adil Rainier Alves

Na primeira linha das anotações, aparecem, nessa ordem, o número do livro lido, a data em que terminei a leitura, o título do livro e o nome do autor.  


851 (23-03-2022) – Capitólio: Genealogia e Registros Históricos – Adil Rainier Alves

             Nesse livro, o autor pesquisa as árvores genealógicas das famílias de Capitólio chegando ao ancestral Nicolas de Hurtere, nascido em 1390, no condado de Flandres, Bélgica.  Criterioso e determinado Adil Alves investiga, por vários anos, a origem das famílias, as mudanças de nome e as contribuições de muitas delas para a construção da Capitólio de hoje. Assim, descreve a vinda dos desbravadores para as matas do Rio Piumhi, os tropeiros e a origem de Capitólio. As contribuições do Coronel Lourenço Bello para a construção de inúmeras estradas e pontes, para a implantação da primeira usina hidrelétrica e para a instalação da primeira central telefônica na cidade são marcantes. O autor entremeia as anotações das origens das famílias e dos fatos históricos com micro contos curiosos e muito engraçados como as Histórias do Tio Suta, do Hamilton, do Dalmir, A História do Zé Pomada e muitas outras. Um desses pequenos contos relata a façanha que foi a compra da pilha para o primeiro rádio de Capitólio, em volta do qual reuniam-se os amigos para ouvir músicas caipiras. A reposição da bateria custou uma carga de 1.200 rapaduras, trabalho de meses do proprietário do aparelho.

            A construção da Hidrelétrica de Furnas, iniciada em 1958 e concluída no segundo semestre de 1962, no governo de Juscelino Kubitschek de Oliveira, foi, na época, traumática pelas desapropriações e pela inundação de fazendas, de um povoado e de uma cidade. O Lago de Furnas tem 1440 km2 de espelho d`água e 3.500 km de margens. Passaram-se muitos anos até que o Reservatório de Furnas se tornasse reconhecido pela geração de energia vital para o desenvolvimento do Sudeste brasileiro e pela criação de novas oportunidades empresariais. A construção de conjuntos residenciais e de balneários famosos como o Escarpas do Lago oferece opções turísticas importantes para a geração de emprego e renda.

            A construção do Dique de Capitólio, de 650m de extensão, represando as águas do Rio Grande, isto é, do Lago de Furnas, 22m metros acima do Lago de Capitólio, formado pelas águas do Rio Piumhi, é uma obra impressionante.  Essa barragem permite a existência do atual Lago de Furnas, sem inundar a cidade de Capitólio, com 22m a mais de altura de água. O Dique de Capitólio forma o Lago de Capitólio, com extensão de 11km e largura média de 550m, represando o Rio Piumhi, que antes corria para o sul, desaguando no Rio Grande, e fazendo-o correr para o norte em direção ao Rio São Francisco.  Essa transposição requereu a construção de um canal ligando o Rio Piumhi ao Rio Águas Limpas que o conduz para o São Francisco.

            O livro é muito bem escrito e de leitura prazerosa para todos.


segunda-feira, 7 de março de 2022

Antes de nascer o mundo – Mia Couto

Na primeira linha das anotações, aparecem, nessa ordem, o número do livro lido, a data em que terminei a leitura, o título do livro e o nome do autor. 


850 (05-03-2022) – Antes de nascer o mundo – Mia Couto

            “Eu vivia num ermo habitado apenas por cinco homens. Meu pai dera um nome ao lugarejo. Simplesmente chamado assim: Jesusalém”. Mwanito, um menino de onze anos, descreve a coutada e os viventes do lugar, os últimos da terra, segundo seu pai Silvestre Vitalício.  “A humanidade era eu, meu pai, meu irmão Ntunzi e Zacaria Kalash, nosso serviçal. E mais nenhum ninguém. Para dizer a verdade esqueci-me de dois semi-habitantes: a jumenta Jezibela, tão humana que afogava os devaneios sexuais de meu velho pai. E também não me referi o meu tio Aproximado. Ele morava junto ao portão de entrada. Entre nós e sua cabana ficava a lonjura de horas e feras”.

            O livro é repleto de reflexões e tiradas filosóficas apresentadas na linguagem inventiva e no estilo poético de Mia Couto.  Conta a história do crescimento, da vivência e das descobertas de Mwanito. “A primeira vez que vi uma mulher tinha onze anos e surpreendi subitamente tão desarmado que desabei em lágrimas”. Seu pai não lhe contara toda a verdade, seu tio Aproximado ia ao mundo inexistente e trazia roupas, alimentos e ferramentas no seu velho caminhão.  Ntunzi já não suportava a vida no que ele chamava de esconderijo criado por seu pai para fugir do crime de matar sua mãe Dordalma. Convencera Mwanito a fugir daquele lugar, mas o medo das feras da savana e do rio boicotou o intento. Aparece Marta no acampamento buscando pelo marido Marcelo.  Ntunzi se apaixona por ela, Mwanito a quer como mãe. A vida se transforma e Ntunzi se empondera, decide acabar com Jesusalém ferindo seu pretenso pai, matando o ente que ele mais ama: Jezibela. Silvestre Vitalício adoece e todos são levados pelo tio Aproximado para a cidade.  Mwanito cresceu, é um rapaz, conhece Noci, a amante do tio Aproximado, e o amor. “A ternura daquela mulher me confirmava que meu pai estava errado: o mundo não morreu. Afinal, o mundo nunca chegou a nascer”.