quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

A Guerra do Paraguai – Luiz Otávio de Lima


Na primeira linha das anotações, aparecem, nessa ordem, o número do livro lido, a data em que terminei a leitura, o título do livro e o nome do autor.


    
804 (11-12-2017) – A Guerra do Paraguai – Luiz Otávio de Lima
            Publicado em 2016, esse livro, muito bem documentado, apresenta os fatos históricos limpando-os de ideologias e de revisionismos favoráveis ou contrários aos militares, aos paraguaios, aos brasileiros.  O autor narra a história da amante de Francisco Solano Lopes, Elisa Lynch, sem inibição, naturalmente, em bom texto literário.  O autor considera todas as circunstâncias antecedendo o conflito, como a invasão do Uruguai pelo Brasil, apoiando o movimento de oposição liderado por Venâncio Flores; as disputas territoriais envolvendo o Brasil, a Argentina e o Paraguai; o interesse pela livre navegação nos rios da Prata, Paraná e Paraguai; e o desejo do Paraguai por fronteiras amplas e definitivas. Mas, credita aos pedidos de socorro do governante uruguaio, Atanásio Aguirre, ao Paraguai, contra a invasão brasileira, um dos principais motivos para o ditador Solano Lopes declarar guerra ao Brasil em 13 de dezembro de 1864 e invadir o país pelo Mato Grosso em 27 de dezembro de 1864 e por Uruguaiana em 1865; a Argentina, por Corrientes, em 18 de março; e o Uruguai, agora sob o comando de Flores e contrário aos paraguaios, no mesmo ano.  A guerra só terminou em primeiro de março de 1870 com a morte de Solano Lopes em Cerro Corá.  O autor informa que no conflito morreram 150.000 pessoas entre civis e militares nos quatro países.
            É um livro muito bom de ler e indispensável para conhecer os feitos dos militares e dos civis, os antecedentes e as consequências desse conflito. 

Amor, Crime e Castigo – Wantuelfer Gonçalves


Na primeira linha das anotações, aparecem, nessa ordem, o número do livro lido, a data em que terminei a leitura, o título do livro e o nome do autor.


803 (11-12-2017) – Amor, Crime e Castigo – Wantuelfer Gonçalves

            Wantuelfer Gonçalves conta essa história num poema em estilo de cordel com rimas e métrica muito bem dispostas tornando o texto muito agradável de ler.  A arte inigualável do autor faz os versos parecerem fáceis e as estrofes, muito elegantes, a ponto de o leitor não se dar conta da mágica artística.
            A história de amor entre Antônio Martins e Manuela Bitencourt acontece em fins da primeira metade do Século XX na região de Araponga.   Antônio era comerciante ambulante transportando as mercadorias nos burros de sua tropa pelas estradas de São Miguel, Ervália, Araponga, São Vicente do Grama, Estouro, Fervedouro, São Bento e Pedra do Anta; era casado e pai de filhos.  Nas suas viagens dormia sob o telhado de algum curral ou ao relento, se o tempo era firme.  Seu Neco, fazendeiro grande e bondoso, tinha fazenda na Serra do Brigadeiro. Reconhecendo o esforço e a honestidade de Antônio, convidou-o a se hospedar na sede da fazenda sempre que passasse nas vizinhanças.  Manuela era filha do seu Neco, e se encantou com a conversa do comerciante e com os casos contados por ele. Os olhares furtivos levaram aos beijos ocultos, aos encontros escusos, e à migração, no meio da noite, entre os quartos.  Manuela engravidou e esperou com ansiedade o retorno de Antônio.  Ele era a única pessoa a quem ela poderia contar e somente ele poderia encontrar a solução.  Combinaram que ele a resgataria na próxima semana.  Antônio apareceu numa noite de muita chuva e fugiram serra acima.  A escapada foi descoberta ainda pela manhã, quando Manuela não fez o café; os rastros de dois cavalos denunciaram a fuga e o malfeitor.  Seu Neco chamou seus homens de confiança e ordenou que trouxessem a moça e matassem o sedutor que abusou de sua confiança fazendo mal a sua filha.  Os dois foram encontrados numa clareira, quase na vertente da serra.  Manuela foi atada à sela de um dos animais e trazida para a fazenda, enquanto os outros jagunços torturaram o homem que desrespeitou a filha do fazendeiro que lhe deu guarida, pouso e confiança.  Antônio foi encontrado por amigos, morto com os braços quebrados, com furos de faca na bexiga e na barriga, sem as orelhas e com várias perfurações a bala.  Os amigos o sepultaram em local esconso e, anos depois, em 1952, seus restos mortais foram transferidos para a capela, hoje em ruínas, que se destaca no alto da Serra do Brigadeiro.  A capela é conhecida como a Ermida do Martins e atrai romeiros solicitando a intervenção do Antônio para ajudar-lhes em seus casos de amor.  Muitos alcançam a graça solicitada como atestam as velas de agradecimento nas reentrâncias da construção.  

A Queda - Diogo Mainardi

Na primeira linha das anotações, aparecem, nessa ordem, o número do livro lido, a data em que terminei a leitura, o título do livro e o nome do autor.


802 (10-12-2017) – A Queda – Diogo Mainardi

            O primeiro período do livro é: “Tito tem uma paralisia cerebral”.  Tito é filho do autor.  Ele apresentou essa deficiência devido a um erro médico no parto causado pela obstetra dottoressa F., no Hospital de Veneza que fora instalado no prédio da Scuola Grande di San Marco em 1808.  Esse erro gerou uma ação judicial que condenou o hospital a pagar uma indenização de três milhões de euros a Tito.
             O autor vai narrando os progressos e quedas do filho e aproveita para denunciar o charlatanismo na ciência médica exemplificado por Tommaso Rangone, a maior autoridade da Scuola Grande di San Marco, na época, que publicou em 1550 o manual médico “Como o Homem Pode Viver Mais de 120 Anos”.  Esse manual continha orientações nutricionais absurdamente estúpidas. Depois o autor comenta, maravilhado, os arquitetos e a arte dos monumentos venezianos; descreve os pintores e os escritores desde o renascimento até os dias atuais; e se revolta contra algumas ideias europeias envoltas em auras de filosofia e ciência, como as que difundiram as práticas da limpeza étnica que teria condenado Tito à execução.

            É um livro muito interessante e de leitura agradável.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

The Path Between the Seas – David McCullough

Na primeira linha das anotações, aparecem, nessa ordem, o número do livro lido, a data em que terminei a leitura, o título do livro e o nome do autor.

                                                                                                                                                                   
801 (18-11-2017) The Path Between the Seas – David McCullough
            A história da construção do Canal do Panamá, contada no livro, inicia-se com as expedições ao Istmo do Panamá, ou Istmo de Darién, em 1870, realizadas pelos americanos para determinar a melhor locação de um canal ligando o Oceano Atlântico ao Pacífico.  Essas explorações sugeriam que o canal deveria ser aberto no Panamá, quarenta milhas ou aproximadamente oitenta quilômetros entre uma praia e outra. Outros exploradores sugeriram um canal via Nicarágua, pela proximidade com os Estados Unidos, mas muito mais longo.  As expedições francesas, nesse mesmo período, indicaram e o construtor do Canal de Suez, Ferdinand de Lesseps decidiu pela construção de um canal em nível, igual ao de Suez, no Panamá.  A sua fama de construtor de grandes obras facilitou o financiamento de sua Companhia do Canal do Panamá, criada em 1880, por grande parte da população francesa.  A Companhia declarou falência em 1892 levando mais de 800.000 franceses a perderem suas economias.  Os franceses cavaram um terço do canal, mas estavam condenados ao fracasso devido à decisão de fazê-lo em nível, o que exigiria um volume de cortes muito profundos em algumas áreas como em Culebra; porque não souberam combater as doenças causadas pelo Anófeles (Anopheles gambiae), transmissor da malária, e pelo Aedes Aegypti, transmissor da febre amarela.
            Após inúmeras negociações, em 1894, os americanos compraram o espólio da companhia francesa por US$40.000.000 e iniciaram as obras. Era presidente dos Estados Unidos Theodore Roosevelt. A influência americana foi fundamental para garantir a independência do Panamá da Colômbia via revolução comandada por Manuel Amador em 03 de novembro de 1903.  O Dr. William Gorgas, conhecido infectologista, foi nomeado chefe do departamento de saúde. Ele organizou um exército para pulverizar todos os possíveis focos de mosquitos causadores da malária e da febre amarela.  Essas doenças foram extintas na região do canal.  Decidiu-se que o canal não seria em nível, mas com eclusas. Seria construída uma grande barragem para formar um lago que regulasse as águas do rio Chagres e suprisse as comportas de água. Muito importante foi estabelecer o engenheiro militar George Goethals, em 1906, como responsável maior pela construção do canal.  O canal foi inaugurado em 15 de agosto de 1914, mas as atenções da mídia e do mundo já estavam voltadas para os conflitos da I Guerra Mundial, e sua inauguração não teve grande repercussão na imprensa.
As inovações mais relevantes, realizadas no canal, são apresentadas elegantemente, e são agradáveis de ler: o uso da energia elétrica em todos os mecanismos, o sistema de fechamento e abertura das comportas, a espessura das paredes das eclusas, as locomotivas para mover e estabilizar os navios nas eclusas, o sistema para descarregar terra e pedras produzidas nos cortes e usadas na construção das barragens, e principalmente a descoberta dos mosquitos transmissores da malária e da febre amarela e da forma de combatê-los.

A travessia do Canal do Panamá é feita por três eclusas, onde a água funciona como um elevador. Vindo do Atlântico, por exemplo, o navio entra na comporta com a água no mesmo nível do oceano. Os portões são fechados e as válvulas de enchimento abertas. A água entra através de poços no piso, elevando o navio 26 metros, até o nível do Lago de Gatun. As válvulas são fechadas e os portões superiores abertos. O navio sai da comporta para o lago e segue para as outras comportas, onde acontece o processo inverso de descida até o nível do Oceano Pacífico. 

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Tereza Batista, cansada de guerra – Jorge Amado



Na primeira linha das anotações, aparecem, nessa ordem, o número do livro lido, a data em que terminei a leitura, o título do livro e o nome do autor.


800 (24-09-2017) – Tereza Batista, cansada de guerra – Jorge Amado
            A história começa no dia da estreia de Tereza Batista como dançarina no cabaré Paris Alegre. Antes de seu número no palco, ela dançava com o poeta Saraiva, quando Libório estapeia outra mulher da casa.  Tereza separa-se de seu par e avança para o local da confusão e diz:
- Homem que bate em mulher não é homem, é frouxo... – Enche a boca de saliva e cospe-lhe na cara.
            É agarrada por um dos companheiros do machão, batedor em mulher, e recebe de Libório um soco que lhe rasga a boca e quebra-lhe um dente.
            O livro avança por vários mundos. O das meninas, como Tereza, órfã vendida aos doze anos pela tia ao capitão Justo para ser estuprada por ele e servir de sua escrava sexual. Seria mais uma argola de ouro no seu colar de meninas desvirginadas. Tereza aos dezesseis anos impressionava pela beleza e pelo corpo. Apaixona-se por um janota que a seduziu.  Descobertos pelo capitão Justo e vendo seu jovem amante apanhar, e para fugir do capitão, mata-o com uma facada.  O mundo dos pobres na prisão é descrito.  Ela é libertada por um advogado amigo.  Sem condições de sobreviver vai servir em castelo de mulheres de reconhecida categoria. O mundo das meretrizes, putas, cafetinas, cafetões e proxenetas é apresentado em detalhes. Na praia, em dia de folga, Tereza encontra Januário Gereba, mestre de saveiro na rota Bahia-Aracaju, e se apaixonam. Mas Januário confessa-lhe honestamente estar impedido de ficar com ela por ser casado e ter de cuidar da mulher doente.  Desiludida e sem ninguém após a partida do saveiro de Januário Gereba, Tereza aceita convite de um jovem médico para acompanhá-lo como amante a sua cidade de trabalho.  A bexiga negra abate sobre o local, o médico foge; cuidam da população um médico idoso que morre contaminado, ela e cinco putas da zona da cidade a servirem como enfermeiras.  Jorge Amado descreve o Brasil assolado por doenças, com vacinas e remédios conhecidos, mas cuja população de pobres ou não é ignorada pelos agentes públicos, incompetentes para tomar decisão de erradicar ou combater a doença antes que se transforme em epidemia. 

Jorge Amado cria mundos dentro de mundos, denuncia e protesta; conta uma grande história; faz pilhéria com políticos, policiais e oficiais públicos corruptos. Tereza Batista é a heroína representando tantas belas e bravas mulheres que desafiam as dificuldades, fazem seu próprio destino, vão à luta e vencem.  Ela termina com seu grande amor, o mestre de saveiro Januário Gereba.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Dunkirk: A Miracle of Deliverance - David Boyle

Na primeira linha das anotações, aparecem, nessa ordem, o número do livro lido, a data em que terminei a leitura, o título do livro e o nome do autor.


799 (09-08-2017) – Dunkirk - A Miracle of Deliverance – David Boyle
            A retirada de Dunkirk, vista pelos ingleses, amenizava a derrota sofrida pelo seu exército espremido pelos alemães na costa francesa do Canal da Mancha.  A organização e o processo de retirada ocorreu entre 19 de maio e 4 de junho de 1940 com grande perda de vidas, barcos e aviões.  Os tanques Panzers, a aviação Luftwaffe e o exército alemão pretendiam eliminar os exércitos britânico, francês e belga refugiados no litoral francês.  Sob fortes bombardeios, 700 embarcações inglesas de todos os tipos e 200 navios e barcos franceses removeram das garras alemãs, sob os olhos alemães 338.683 soldados que posteriormente foram lutar no norte da África, na Itália e na Normandia.  A aviação inglesa, RAF, perdeu 177 aviões, a marinha perdeu 236 barcos e boa parte do exército britânico não tinha armamento.
            O crédito maior pelo sucesso da operação, que planejou retirar no máximo 45.000 soldados e conseguiu repatriar mais de sete vezes esse número, é conferido ao almirante Bertram Home Ramsay pelo planejamento, pelas decisões, pela liderança e pelos desafios que enfrentou.
            Para os franceses, a Retirada de Dunkirk foi, no pior dos casos, uma traição dos ingleses, que fugiram da França, deixando os franceses à própria sorte sob o domínio alemão e, no melhor, uma decepção: a maior parte da tropa francesa evacuada foi enviada de volta a Cherbourg, na França, quatro ou cinco dias mais tarde.

            É um livro de leitura rápida pela ação desenvolvida e por ser pequeno, mas é muito bem documentado.

domingo, 30 de julho de 2017

Redenção - Wantuelfer Gonçalves

Na primeira linha das anotações, aparecem, nessa ordem, o número do livro lido, a data em que terminei a leitura, o título do livro e o nome do autor.

798 (30-07-2017) – Redenção – Wantuelfer Gonçalves
             Como sempre esse é mais um livro com a grande arte poética de Wantuelfer.  É também mais um livro de fotopoemas.  É mais um livro em que ele critica acidamente os três poderes, principalmente o legislativo e, aí, os políticos do PT e o PT são destacados como motivo de zombaria, de protestos e até mesmo de revolta quanto à corrupção generalizada que implantaram no país. 
            Há dois pontos destoantes no livro. O primeiro é a dedicatória às forças armadas e o segundo está em sugerir a redenção do país pelos militares.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

White Gold - W. B. Garvey

Na primeira linha das anotações, aparecem, nessa ordem, o número do livro lido, a data em que terminei a leitura, o título do livro e o nome do autor.



797 (20-07-2017) – White Gold – W.B. Garvey
            Esse livro continua, como o anterior “Panama Fever”, tratando da construção do Canal do Panamá, mas a ênfase agora está no racismo, na discriminação que os trabalhadores jamaicanos, negros, sofrem dos americanos. Os americanos brancos recebem um salário mais alto, em dólar, na escala ouro enquanto os demais recebem pela mesma atividade um salário mais baixo, em moeda local, na escala prata. Crimes puramente raciais são praticados. Um americano criminoso, operador de um guindaste, acerta com o gancho da máquina o rosto de Boy-Boy desfigurando sua face e o prendendo longo tempo no hospital.  Ainda com o maxilar torto retoma seu namoro com Grace, casa-se com ela e estão felizes com a chegada do primeiro filho para alguns meses. Mas, numa noite, ao retornar do trabalho exaustivo, Grace esvai-se em sangue e morre.  Boy-Boy chega de uma quermesse mais tarde e vê sua casa manchada de sangue desde o corredor até a cama do casal. Vai sair desesperado em busca da mulher quando a polícia bate a sua porta e comunica-lhe a morte da esposa.  Mostra-lhe um revólver que ele reconhece ser o de seu sublocatário e é informado de que aquela arma fora encontrada dentro da parede de sua casa e teria assassinado um policial panamenho.  O policial quer saber a quem pertence a arma e qual o seu paradeiro.  Boy-Boy não confessa e é preso. Na prisão desiste de viver, não se alimenta e morre.  Roberson formou-se em engenharia, é um profissional competente e inventor de um sistema mais seguro de frenagem de locomotivas, mas ao substituírem o competente chefe negro da oficina de construção e reparo de peças de locomotiva e barcos, ele também é rebaixado para o setor de controle de estoque com salário mais baixo na classe prata.  Mais tarde ele retorna à Jamaica, após ser preso por policiais panamenhos bêbados, enquanto comemorava com sua amante Isabella a conclusão das obras do Canal em 1914. Volta à Jamaica sem obter o sucesso esperado e encontra sua esposa, que o abandonou no Panamá por não suportar a discriminação vivenciada, morrendo esquálida e arrependida por criar o filho longe do pai por tanto tempo.

            É um livro às vezes difícil de ler pelo vocabulário rebuscado ou nada tradicional, mas as histórias são atraentes. 

segunda-feira, 24 de abril de 2017

MELHORANDO O NOVO ENSINO MÉDIO

Melhorando o Novo Ensino Médio
Erly Cardoso Teixeira[1]

O Ministério da Educação e Cultura (MEC) divulgou em setembro de 2016 os resultados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de 2015. Os 15,5 milhões de alunos do Ensino Fundamental anos iniciais (1o ao 5o ano) ultrapassaram a meta prevista de 5,2 e atingiram 5,7 pontos.
Foi o único resultado bom, pois os 12,4 milhões de alunos do Ensino Fundamental anos finais (6o ao 9o ano) obtiveram 4,5 pontos no Ideb, quando a meta eram 4,7 pontos.  O Ensino Médio, etapa da educação básica, com 8,0 milhões de alunos em escolas públicas e privadas, 97,1 % vinculados à rede pública estadual, deveria atingir a meta de 4,3 pontos no Ideb, tendo alcançado apenas 3,7. Esse é o mesmo resultado de 2011 e apenas um pouco melhor do que o de 2005, de 3,4.
Outra divulgação com resultado devastador é o do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) de 2015. Os estudantes do Ensino Médio estão aprendendo, hoje, menos português e matemática do que há vinte anos.
Completando esse péssimo quadro para a educação básica (ensino fundamental e ensino médio) no Brasil, foram divulgados no dia 06 de dezembro de 2016 os resultados do Programme for International Student Assessment (Pisa). O Pisa de 2015 testou cerca de 540 mil estudantes de 15 anos de idade em 72 países. Estudantes com 15 anos de idade, no Brasil, cursam o Ensino Fundamental anos finais (6o ao 9o ano). Entre as 72 nações, o relatório mostrou o Brasil na 63ª posição em ciências, na 59ª em leitura e na 66ª colocação em matemática.
              O Ministro da Educação afirmou no lançamento dos indicadores do Ideb: “Esses resultados demonstram a falência do Ensino Médio brasileiro e a necessidade de mudanças imediatas”.
Ante os resultados frustrantes emitidos pelo Ideb e pelo Saeb e antecipando-se aos resultados do Pisa, o Ministério da Educação reage lançando, no dia 22 de setembro de 2016, um plano para o Ensino Médio, o Novo Ensino Médio.  O problema desse plano é ter sido elaborado antes de serem identificadas as causas do péssimo desempenho dos estudantes brasileiros nas avaliações do Ideb, Saeb e Pisa. Esses resultados mostram que nossos estudantes aprendem pouco e retêm quase nada do que aprendem, mas não dizem por que isso acontece. Assim, é preciso descobrir as causas desse insucesso e atacá-las.
As publicações da literatura sobre a “Pirâmide de Retenção do Aprendizado” ajudam muito a identificar esses fatores. Os artigos publicados, tratando do tema aprendizado nas escolas, informam que alunos submetidos a aulas apenas expositivas aprendem, quando muito, 10% do conteúdo oferecido, e o que aprendem, eles retêm por muito pouco tempo. Já os estudantes que tiveram aulas práticas ou a oportunidade de ver o conceito acontecendo acumulam 30% de conhecimento e retêm esse conhecimento por muito mais tempo. Mas, se ao aluno for oferecida a oportunidade de discutir e trabalhar com o conceito, isto é, de realizar experimentos, ele aprende, em média, 75% do conteúdo, e o recorda pelo resto da vida. E o melhor, pode aplicá-lo em exames de acesso ao ensino superior, em atividades profissionais e em inovações.
No Brasil, mais de 90% das aulas ministradas no Ensino Básico são unicamente expositivas.  Isto é, o aluno apenas ouve o professor explicando os conceitos na lousa ou via apresentações projetadas.  Portando, aprende, no máximo, 10% do que lhe é ensinado.
Nos últimos dez anos, na minha classe de 40 alunos de graduação, nos minutos finais de uma das aulas do semestre, fiz sempre as mesmas duas perguntas.  A primeira: quem teve, no Ensino Médio, aulas práticas semanais no conjunto das disciplinas - física, química, matemática, biologia e geografia?  A melhor resposta que obtive foi somente de um aluno entre os 40. A segunda pergunta é: quem teve, no Ensino Médio, aulas práticas semanais em, pelo menos, uma das disciplinas - física, química, matemática, biologia e geografia?  Apenas uma vez, em dez anos, cinco alunos levantaram a mão. Nos outros anos, nunca mais de dois alunos diziam ter tido demonstrações práticas em uma ou outra disciplina.  Essa informação confirma que mais de noventa por cento (90%) do conteúdo do Ensino Médio é apresentado aos alunos apenas na forma expositiva, o que explica o mau desempenho nos testes e o alto grau de evasão ou a demora na conclusão dos cursos. Aprender apenas via aulas expositivas é cansativo, dispersivo e frustrante.
            Os elementos acima sugerem que a causa principal do insucesso dos nossos estudantes está na forma de apresentação das disciplinas: expositiva, apenas no quadro negro, verde ou branco. 
O que há de novo no plano para o Ensino Médio?  Ele ataca o principal problema da aprendizagem no Brasil, a apresentação apenas expositiva dos conteúdos?  Os principais destaques do plano para o Novo Ensino Médio são apresentados abaixo. Primeiro, maior investimento (promessa de R$1,5 bilhão) e ênfase em escolas em tempo integral.  Isso é essencial para melhorar a apresentação dos conteúdos e para que se tenham aulas práticas nas escolas.  Segundo, o Ensino Médio oferecerá formação técnica (científico) e profissional simultaneamente. Espera-se que essa oferta seja simultânea, mas não está clara no plano.  Serão no mínimo oito e no máximo trinta escolas por estado. Ora, isso é um plano piloto, parece mais um teste que uma ação para solucionar o problema. Terceiro, flexibilização do currículo. Serão ofertadas quatro áreas de estudo: linguagem, matemática, ciências da natureza e ciências sociais e humanas. Isso é apenas uma alteração no conteúdo e gera mais polêmica do que contribuição para melhorar o Ensino Médio. Quarto, o Novo Ensino Médio estabelece a ampliação gradual da jornada escolar para 2.400 horas, isto é, escolas em tempo integral. 
Portanto, esse plano não enfatiza a mudança na forma de apresentação das disciplinas, de expositivas para expositiva demonstrativa.   Pode contribuir para alguma melhora nos resultados das avaliações, talvez permitindo chegar aos resultados de aprendizagem obtidos há vinte anos. Mas a sociedade brasileira deseja que nossos estudantes recebam ensinamento de qualidade, atinjam grau de excelência e sejam classificados entre os melhores do mundo.
Atingir esse objetivo requer um plano que contemple: escolas em tempo integral; adaptação do currículo escolar; treinamento de professores para ministrar aulas demonstrativas; adaptação e, até mesmo, construção de salas de aula e\ou laboratórios para aulas práticas; oficinas para treinamento dos futuros profissionais; aquisição de equipamentos; contratação de professores com a qualificação adequada; e remuneração de professores condizente com sua qualificação e com o tempo dedicado ao ensino.
Aplicadas as sugestões apontadas acima, melhores estudantes do ensino fundamental chegarão ao ensino médio, e melhores alunos do ensino médio irão cursar o terceiro grau.   Aqueles estudantes do ensino médio que não conseguirem acesso a um curso superior ou que não quiserem continuar estudando terão, contudo, maiores oportunidades no mercado de trabalho.  




[1] Professor Titular Voluntário da Universidade Federal de Viçosa, e-mail teixeira@ufv.br

Panama Fever: Digging Down Gold Mountain – W.B. Garvey

           Na primeira linha das anotações, aparecem, nessa ordem, o número do livro lido, a data em que terminei a leitura, o título do livro e o nome do autor.
796 (20-04-2017) – Panama Fever: Digging Down Gold Mountain – W.B. Garvey                                                             A narrativa começa em setembro de 1882 quando um vapor carregado de jamaicanos chegava a Colón para cavar o Canal de Panamá.  Terremotos, deslizamentos, revoltas políticas e doenças tropicais mataram mais de 25.000 trabalhadores que avançaram pouco mais de 20 quilômetros nas escavações de um canal planejado para 77 quilômetros.  A companhia criada pelo francês Ferdinand Marie de Lesseps, o construtor do Canal de Suez, que intentava construir um canal sem comportas, quebrou sob denúncias de corrupção.  A companhia francesa foi comprada pelos Estados Unidos em abril de 1904, concluindo as obras em 1914.                                                                                 Byron e Thomas Judah, ambos jamaicanos, tornam-se grandes amigos.  Byron, entusiasmado, vê-se, aos poucos, alquebrado por doenças e acidentes dos quais escapou por muito pouco.  Agradecido pela ajuda recebida em várias oportunidades pela senhora Morales, dona do bordel mais luxuoso da cidade, torna-se seu amante e desiste de acompanhar o amigo Thomas na aventura menos arriscada de encontrar ouro na Venezuela. Thomas escavou por algum tempo, mas ferido gravemente num terremoto, foi tratado no pavilhão de saúde onde conheceu e se apaixonou por Genevieve, uma noviça vestindo branco e um chapéu de pontas que pareciam asas.  Namoraram por algum tempo até que Genevieve solicitou e foi enviada a prestar serviços num leprosário. Thomas parte em busca de ouro na Venezuela e encontra uma mina.  Retorna a Colón para buscar seu grande amor e seu grande amigo, mas Geni havia morrido e Byron desiste de acompanhá-lo.

                                                                            





                  


segunda-feira, 13 de março de 2017

A Dureza do Espelho – Omar de Moura Luz


Na primeira linha das anotações, aparecem, nessa ordem, o número do livro lido, a data em que terminei a leitura, o título do livro e o nome do autor.

795 (11-03-2017) – A Dureza do Espelho – Omar de Moura Luz
Essa novela, encontrei-a debaixo da porta em folhas soltas, sem numeração e sem o nome do autor.  Bastou-me ler algumas linhas para identificar o estilo claro, límpido, engraçado e inconfundível de Júlio Paixão.  Liguei para ele, mas estava viajando e deixei o recado de que iria ler a novela ou o conto.
Eu estava terrivelmente enganado, o texto é do grande escritor, meu vizinho e amigo, Omar de Moura Luz. Encontramo-nos hoje e ele perguntou-me se havia encontrado o conto sob a porta. Desfeita a confusão, mantenho a resenha que fiz.
 O texto de quarenta páginas em espaço simples é longo para conto, mas é curto para um romance; classifico-o como novela.   Iniciei a leitura sorrindo: um sujeito “enfiado no ridículo conjuntinho safári... e que não se divorcia dos fingidos jeitos e trejeitos” chega a uma sala grande, onde o narrador em posição privilegiada identifica os visitantes.  “...veja como se pavoneia, ...  apesar dos rapapés, não tira os olhos das curvas de Aurora”. Continua o narrador enciumado, também tarado na Aurora, tanto que escalou o muro da casa dela para vencer o portão trancado e visitá-la. Outros conhecidos vão chegando e o narrador, revela-lhes a vida usando técnicas literárias invejáveis pela clareza, graça e fluência do texto.  Mas se isso não bastasse, as reflexões do autor sobre a morte, a vida pós morte, a busca por mais um pouco de vida na terra, existência da alma, Deus e os poderes de Deus, a doutrina espírita, na forma como são apresentadas, engrandecem o livro.    As estórias são várias e diversas, a maioria refere-se a mulheres. Por exemplo: “Houve outra que era do mesmo feitio dessa daí. Era uma mulher marmórea”.  Que permite ao autor o seguinte diálogo: - “Você diz que gosta, mas não demonstra, não emite um único murmúrio. Essa frieza, essa falta de prazer, é só comigo?” - “Não, com todos os que tive.” - “E quantos foram?,  perguntei” – “Não sei, perdi a conta”. Após inúmeras estórias chega-se ao final.  O narrador estava no seu próprio velório conversando com um amigo. 
-“E você Adamastor, o que faz aqui? ... Agora me lembro, você é mais novo, mas já morreu!”
- Morri, e demorei a acreditar na minha morte.
-Você está brincando...
- Está na hora, professor, seu tempo já passou. Recebi a incumbência de guiá-lo.
- Eu morri?
- Morreu, morreu no mesmo dia em que tentou escalar o muro da casa de Aurora.
- Mas...

            Terminei a leitura sorrindo, a novela é muito boa de ler, e impressionado com a criatividade literária do autor. O narrador se nocauteou, as suas reflexões foram chacoalhadas, mas permanecem vivas como uma árvore agitada pelo vento.  

segunda-feira, 6 de março de 2017

To Kill a Mockingbird – Harper Lee


Na primeira linha das anotações, aparecem, nessa ordem, o número do livro lido, a data em que terminei a leitura, o título do livro e o nome do autor.

794 (04-03-2017) – To Kill a Mockingbird – Harper Lee
     O capítulo primeiro do livro remete o leitor para o braço quebrado e torto de Jem Finch, acidente que ocorreu nas últimas páginas do livro.   Os dois irmãos Jem, de quase 13 anos e Jean Louise, de oito, estão recordando os acontecimentos de sua curta existência.  Vivem na cidade de Maycomb, no Alabama, são filhos de Atticus, um defensor público viúvo, mas paizão.  Scout, como o irmão Jem chama Jean Louise, conta a estória do primeiro dia de aula, da escola que lhe desagrada, fala do trabalho do pai e revela que seus dois primeiros clientes foram as duas últimas pessoas enforcadas na cadeia de Maycomb.  Vai falando dos brancos incultos, pouco chegados a banho e a higiene, pobres, bêbados e muitas vezes violentos, os white trash, que vivem próximo a um lixão. Descreve o gueto do negros, pobres, mas cujas casas são limpas e bem cuidadas e de como eles são respeitosos.  De uma forma muito engraçada, as intervenções de Scout desnudam a sociedade e ilustram as fazes de sua infância.  O clímax da estória é o julgamento por estupro de uma moça branca, praticado por um negro, Tom Robinson.  Atticus é o defensor do negro. Ele e os filhos são chamados de amantes de negros e são evitados pelos vizinhos racistas numa cidade racista. No julgamento, Atticus prova que a moça branca, Mayella Violet Ewell, de 19 anos, filha de uma família white trash atraiu o negro Tom Robinson a sua casa, solicitando-lhe que a ajudasse a mover alguns móveis. Tentou seduzi-lo beijando-o, mas o pai da moça, chegando em casa, viu a filha se agarrando ao negro e gritou-lhe chamando-a de puta.  O negro fugiu e o pai espancou a moça com violência, após o que chamou o delegado para ver o estado em que o negro, que estuprara sua filha, a deixara, com um olho roxo, rosto inchado de pancadas e roupa rasgada e suja. O médico que poderia provar o estupro não foi chamado.  O negro, portanto, era inocente, mas o júri racista votou por unanimidade pela sua culpa, como era típico nos julgamentos de negros no sul dos Estados Unidos. Na prisão, Tom Robinson tentou fugir e foi morto pelos policiais.  Algumas semanas depois, Bob Ewell, o pai de Mayella, após uma apresentação teatral na escola das crianças, perseguiu Scout e Jem, oculto pela escuridão total, os filhos de Atticus.   Esfaqueou a menina, mas não a atingiu porque foi protegida pela armação metálica da roupa cênica, torceu o braço esquerdo de Jem até quebrá-lo, mas antes que pudesse matá-lo, recebeu uma facada no estômago aplicada por Boo Radley, um rapaz altista que, como um anjo da guarda, protegia Scout e o irmão.

       O livro publicado em 1960 retrata o sul dos Estados Unidos nessa época.  A autora transforma um livro de denúncia, cuja estória é contada por uma garotinha de oito anos, numa fotografia da sociedade sulista americana.  É um livro gostoso de ler, muito engraçado e inteligente.

quinta-feira, 2 de março de 2017

Tróia - O romance de uma guerra – Cláudio Moreno


Na primeira linha das anotações, aparecem, nessa ordem, o número do livro lido, a data em que terminei a leitura, o título do livro e o nome do autor.

559 (2004) – Tróia - O romance de uma guerra – Cláudio Moreno

            É um livro muito bem construído que repassa a mitologia grega direcionando-a para a Ilíada.  Oferece-se uma nova visão dos deuses gregos aos quais se permite uma vida celestial e terrena facilmente aceitável e repleta de mitos muito bem descritos. Quando o autor avisa onde começa a Ilíada no texto, o leitor vem de uma, mais que agradável, preparação para a Ilíada.  O livro se inicia com as bodas de Peleu e Tétis, os futuros pais de Aquiles.  Conta a estória das deusas Afrodite, Atenas e Heras. Descreve Cassandra, a que via o futuro e o alardeava, mas cujos vaticínios não eram reconhecidos. O autor conta a estória de Helena gerada da relação de Zeus, transmutado em cisne, com a mãe de Helena. Narra o rapto de Helena por Teseu e a solução encontrada por Helena para amar Teseu e continuar virgem.  A guerra de Tróia, a partir desse livro, tem motivo ou pretexto, início, desenrolar e fim, e outro fim construído habilmente pelo autor.

            É o melhor e mais bem escrito livro sobre a guerra de Tróia e a mitologia grega que li.  O livro é muito bem elaborado, escrito e muito bom de ler.

The Rape of Nanking – Iris Chang

Na primeira linha das anotações, aparecem, nessa ordem, o número do livro lido, a data em que terminei a leitura, o título do livro e o nome do autor.


568 (2005) – The Rape of Nanking – Iris Chang

            O Japão invadiu a China em 1931, mas somente chegou a Nanking, a capital da China Nacionalista presidida por Chiang Kai-Shek em dezembro de 1937. Retirou-se da China no final de 1945, após as bombas de Hiroshima e Nagazaki.  Esse livro se detém apenas no período de seis semanas que vai de 13 de dezembro de 1937 ao fim de janeiro de 1938.  Nesse período, o exército japonês matou soldados rendidos e desarmados, matou civis e estuprou e matou mulheres em número que varia entre 250.000 e 400.000.  O número mais aceito para as mortes nessas seis semanas em Nanking é 300.000 pessoas.  Isso oferece apenas uma branda imagem da selvageria do exército japonês.  O número de mortes nesse período qualifica o exército japonês como o mais brutal e mais criminoso da história da humanidade.  O número de mortes de civis e soldados, na campanha da China, pelo exército japonês é calculado como sendo de dezenove milhões de pessoas.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Tuareg – Alberto Vázquez-Figueroa


 Na primeira linha das anotações, aparecem, nessa ordem, o número do livro lido, a data em que terminei a leitura, o título do livro e o nome do autor.


        
           529 (2000) – Tuareg – Alberto Vázquez-Figueroa
           
        O livro começa com a chegada de dois visitantes às tendas da família de Gacel Sayah.  Após narrar a tradição e o respeito devido à hospitalidade dos tuareg e seu conhecimento do deserto do Saara, o autor descreve a invasão do acampamento por um grupo de militares que mata um dos hóspedes de Gacel Sayah e leva sequestrado o outro.  A partir daí, contam-se as aventuras de Gacel para vingar sua honra. Inicialmente, ele mata o guia que levou os militares a sua tenda em um duelo de espadas, vai ao posto militar e mata o comandante que assassinou seu visitante.  Após esses feitos, ele desafia o deserto e sobrevive a horrores numa região de salinas, e finalmente chega ao oásis onde residia a administração da província.  Prende o superintendente e fica sabendo onde está preso seu hóspede.  Vai ao forte, mata os soldados e liberta seu hóspede.  Foge pela terra vazia de Tikdabra, conhecida somente por muito poucos, e entrega seu hóspede em segurança num país vizinho. Volta para buscar sua família aprisionada como refém.  Quando o presidente desfila pelas ruas da cidade, Gacel o mata sem saber que não era mais o antigo presidente, que fora deposto, mas o novo presidente, exatamente seu hóspede.

            É um livro ótimo de se ler, com uma estória muito bem construída numa região pouco conhecida, o deserto do Saara, e vivenciada por um povo cujas tradições, conhecimentos e modo de vida são quase ignorados. A trama do livro é muito bem planejada e escrita; e o desfecho é um dos mais impactantes que já li.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

O homem que amava os cachorros – Leonardo Padura

Na primeira linha das anotações, aparecem, nessa ordem, o número do livro lido, a data em que terminei a leitura, o título do livro e o nome do autor.

             
768 (28-11-2015) – O homem que amava os cachorros – Leonardo Padura

            Inicio essa resenha com os comentários de Frei Betto apresentados no início do livro.  “Essa premiadíssima obra do cubano Leonardo Padura, traduzida para vários idiomas, é e não é uma ficção. Aborda um fato real: após cumprir pena pelo assassinato de Leon Trotsky na Cidade do México, Ramón Mercader refugia-se em Cuba.
            Padura narra a trajetória do homem que nunca falou e que, como militante comunista, recebeu a tarefa de eliminar Trotsky.  Descreve sua adesão ao Partido Comunista espanhol, o treinamento em Moscou, as mudanças de identidade e os artifícios para ser aceito na intimidade do líder soviético.
            Este romance é como um espelho retrovisor que permite ao leitor mirar, com olhos críticos, as contradições do socialismo e porque a morte de Trotsky, decidida por Joseph Stalin, contribuiu para a queda do Muro de Berlim e o desaparecimento da União Soviética.
            Mesmo para quem não se interessa pelos fatos históricos, subjacentes à narrativa de Padura, sua escrita impele a uma tensão permanente em torno dos preparativos para a realização de um crime de repercussão mundial.  São três histórias que se entrecruzam e têm como cenário: União Soviética, Espanha, Turquia, França, México e Cuba.  O homem que amava os cachorros é uma primorosa obra literária, impactante, que retrata as contradições das utopias libertárias que moveram o século XX e expõe os dilemas do mundo em que vivemos”.
            
            Agora apresento o meu resumo.  O livro se inicia na Havana de 2004 com as palavras “Descanse em paz” no enterro de Ana, esposa de Ivan que morreria três anos depois quando o teto de seu quarto lhe caiu em cima, na sua deteriorada residência nessa mesma Havana.   Ivan deixa de herança, para seu amigo Daniel, os originais de um livro escrito a partir das revelações de um velho que ele encontrara na praia se divertindo com seus dois cães de raça russa.  Esse encontro propiciou outros encontros durante os quais esse senhor foi narrando a Ivan a estória de um amigo já falecido, mas que, pelos detalhes, Ivan reconhece que pertenciam a esse mesmo velho.  Aos poucos, sabe-se que esse velho era Ramón Mercader, o homem que amava os cachorros, mas que em 21 de agosto de 1940 acertara a cabeça de Trotsky com uma picareta que o levou à morte no dia seguinte.  A partir dessa narrativa e pesquisas em diversas fontes, Ivan faz anotações que se transformam no livro que ele deixa ao amigo Daniel.  Mas a estória e a história narradas nesse livro começam em 1905, quando Trotsky e Lênin construíam a revolução bolchevique de 1917.   Com todas as dificuldades, devido à pressão dos exércitos americanos, ingleses, franceses e japoneses que não queriam a vitória dos revolucionários russos, os bolcheviques, a revolução avançava a partir das vitórias do exército vermelho criado e comandado por Trotsky.  Mas Lênin morre em 1924 e assume o poder Joseph Stalin.  Discordâncias internas de um Trotsky que via o futuro da revolução na sua internacionalização e do governo que centrava sua atenção no governo doméstico, mais fácil de concentrar esforços e poder, causaram a destituição de Trotsky de todos os poderes e de seu exílio, inicialmente para o Cazaquistão, depois para a Turquia, para a Noruega e finalmente para o México, onde seria assassinado.  Ao longo da narrativa e do desenrolar das tramas como o do Julgamento de Moscou, do apoio da União Soviética à Guerra Civil espanhola, da vida em Cuba e da influência de Moscou na esquerda internacional, o que mais se destaca são as mentiras, os falsos apoios, as prisões injustificadas, as torturas, as decisões de quem deve viver sob o terror do medo ou deve morrer.  Stalin teria matado mais de 20 milhões de russos nas prisões geladas do arquipélago Gulag na Sibéria, nos paredões de fuzilamento, nas salas de tortura e por encomenda como a morte de Trotsky e de seus dois filhos e de inúmeros amigos e simpatizantes das ideias de Trotsky.

            Fica-me a impressão de que o exposto nesse livro deve cobrir de vergonha todos os que acreditaram no comunismo e no socialismo soviéticos. Pior para os que creram no comunismo e no socialismo exportados pela União Soviética.  E o arrependimento irremediável dos que prenderam, torturaram, mataram, roubaram e lutaram em nome da falsidade comunista ou socialista e da ilusão propagandeada pelo regime soviético?  Esse livro não deixa pedra sobre pedra das ruínas da União Soviética e do comunismo propalado por ela.