Na primeira linha das anotações, aparecem, nessa ordem, o número do livro lido, a data em que terminei a leitura, o título do livro e o nome do autor.
Neste livro espetacular, fartamente
documentado e repleto de descrições pitorescas e inovadoras, Laurentino Gomes
relata os eventos, relacionados à escravidão, acontecidos desde a corrida do
ouro em Minas Gerais em fins do Século XVII até a chegada da corte de dom João
VI ao Brasil em 1808.
Uma informação curiosa reporta que
tanto os inconfidentes mineiros que buscavam libertar o Brasil de Portugal, em
1789, quanto os líderes da independência dos Estados Unidos, em 1776, eram
donos de escravos. A abolição da escravatura, em ambos os países, ocorreu
décadas depois da independência, 1888, com a Lei Áurea, no Brasil e, em 1865,
após a Guerra de Secessão, nos Estados Unidos.
Um fato histórico relevante e pouco
conhecido é o das monções, isto é, expedições para assegurar as fronteiras
brasileiras no extremo oeste, nas divisas do Paraguai e da Bolívia com o Mato
Grosso do Sul e Mato Grosso, e para a lavra do ouro na região de Cuiabá. As monções
percorriam um trajeto de quase 3.700 km, ao longo dos quais era necessário
transpor 113 saltos, cachoeiras e corredeiras de dez diferentes rios, em
viagens que duravam entre quatro e seis meses até chegarem às minas de ouro.
“O mais impressionante e detalhado
registro de uma dessas monções foi feito pelo sargento-mor Teotônio José Juzarte,
à frente de uma frota de 36 canoas e cerca de oitocentas pessoas. Juzarte
partiu de Araritaguaba, hoje Porto Feliz, SP, no dia 13 de abril de 1769 rumo
ao longínquo Forte Iguatemi, na fronteira do Paraguai com o atual estado do
Mato Grosso do Sul. A navegação de mais de mil quilômetros pelos rios Tietê,
Paraná e Iguatemi demorou dois meses e dois dias”. Todos os trabalhos a bordo e
os de remar, transpor cachoeiras carregando as canoas, às vezes por
quilômetros, e recarregar as embarcações eram feitos pelos escravos.
O tráfico de escravos ocorria pela
prisão dos derrotados em batalhas travadas ou financiadas por traficantes
brasileiros, portugueses, ingleses, franceses e outros contra os reinos
africanos, ou pela venda aos traficantes dos prisioneiros das guerras entre
reinos rivais. Num desses eventos, “Agaja, rei do Daomé, conquista o reino de
Aladá e se consolida como grande fornecedor de cativos na costa da África”.
Todos os aspectos da escravidão são descritos
com maestria literária abordando os temas: trabalho, violência, a família
escrava, os líderes masculinos e femininos, os quilombos, fugitivos e rebeldes,
o medo da população branca das revoltas dos escravos, e os navios negreiros.
Este é um livro brilhante, muito bem
escrito, recheado de elementos históricos que tornam sua leitura muito
agradável.
