segunda-feira, 24 de outubro de 2022

Leny e o Informante – Erly Teixeira

Na primeira linha das anotações, aparecem, nessa ordem, o número do livro lido, a data em que terminei a leitura, o título do livro e o nome do autor. 


853 (17-05-2022) – Leny e o Informante – Erly Teixeira

            Leny é soterrada num poço de garimpo, contudo as mãos fortes de Moisés a libertam. O dono do garimpo, Tonzé, seu amante, que a trouxera de São Paulo, há um ano, com promessas de amor, ouro e joias, descarta-a e ela aceita abrigo no aconchego de Moisés. O casal é expulso da lavra. Moisés sonha bamburrar e vai garimpar no Rio do Rato, afluente do Rio Tapajós, no Pará. Leny, aos 23 anos, linda e desejada, em 1986, não encontra emprego em Gurpião, norte de Goiás, e se vende como garota de programa aos donos de garimpo, na Brasília, uma furna de pedreira, a zona da cidade.

            Tonzé, em 1969, frequenta o curso de cabo no Tiro de Guerra e o ensino médio e é cooptado pelo PCdoB para combater na guerrilha do Araguaia. Antecipadamente, o tenente Ramos, comandante do TG, oferece-lhe o posto de cabo, convence-o a agir como informante do Exército e o auxilia a se inscrever no partido comunista e a participar de treinamento em São Paulo.

            O Destacamento C, da guerrilha, é muito atuante na região de Mutum, no sudeste do Pará. Tonzé, o espião, recém-chegado à guerrilha, em 1970, participa do Grupo de Apoio aos Posseiros, de arma na mão, contra grileiros, é enfermeiro quando solicitado, distribui remédios nos povoados, é professor nas escolas, é regatão, mascate, nos fins de semana nos lugarejos às margens dos rios Araguaia e Xambioá e de alguns igarapés. O treinamento na selva é intenso, caminhando na mata, cultivando roças, construindo depósitos de alimentos e praticando tiro e ataques ao inimigo. Todas as atividades e os codinomes dos visitantes e companheiros guerrilheiros são delatados por ele ao senhor Lucas, agente do Exército, na mercearia Almenara.

            Os dois primeiros anos são de férias no paraíso. Tonzé conhece o amor na selva e nas praias do Rio Araguaia, visita as bases guerrilheiras reformando as instalações, banhando-se nas cachoeiras do caminho e nas praias do Rio Xambioá. Torna-se um mateiro e guerrilheiro experiente e reconhecido.

            Os militares executam várias operações frustradas para exterminar a guerrilha. Batalhas esparsas ocorrem nesse período com poucas baixas de ambos os lados. As Forças Armadas desconhecem os guerrilheiros, seu armamento, suas táticas de guerra, os acampamentos e seus colaboradores. Sua maior fragilidade é não conhecer a selva. Mas aos poucos ganham experiência e disposição para fustigarem os guerrilheiros no seu ambiente.

            A Operação Sucuri colhe informações sobre os guerrilheiros, seus acampamentos, armazéns de alimentos e de munição, e sobre sua rede de colaboradores. Quando os militantes comunistas a descobrem, matam alguns agentes militares infiltrados, tentam assassinar Tonzé, descoberto como informante, mas é tarde. Em outubro de 1973, inicia-se a Operação Marajoara, ou a caçada aos combatentes do PCdoB. Os militares penetram na floresta e atacam os guerrilheiros nos acampamentos e nas trilhas guiados por Tonzé, que escapa dos insurgentes e se reincorpora ao Exército, e outros mateiros.  Os colaboradores ou amigos da guerrilha são trancafiados na base militar de Xambioá. Os militantes comunistas não podem caçar porque o barulho dos tiros atrai os militares, não podem fazer fogo para preparar as refeições porque a fumaça os denuncia, os depósitos de alimentos são destruídos pelos soldados, e não há posseiros amigos. Aonde chegam em busca de comida são recebidos com rajadas de metralhadora; nas trilhas, antes conhecidas apenas por eles, são alcançados e mortos pelas patrulhas, algumas comandadas por Tonzé promovido a sargento; até nas fontes de água são caçados como animais. Falta-lhes tudo: alimento, roupa, remédio, armas e liderança. Nenhum guerrilheiro resta vivo no Araguaia em 1975, cinquenta e oito são mortos na selva; três, em aparelhos destruídos ou sob tortura; dezessete fogem da guerrilha ou são presos, mas sobrevivem; dezenas de colaboradores ou amigos, nos povoados, são presos e torturados, e cinco, mortos. Morrem dez militares e nove são feridos.

            Acabada a guerrilha, Tonzé se adianta ao Major Curió e vai para o garimpo de Serra Pelada. Retorna a Gurpião quando acaba o ouro no seu terreno para encontrar sua família destruída, não é recebido pelo pai. Compra fazenda e lavra e vai a São Paulo em busca de equipamento para o garimpo. Encontra Leny e a atrai com promessas vãs, mas em pouco tempo a abandona.

            Moisés lavra ouro em terra indígena invadida, em Itaituba-PA, no garimpo de Dasquanta; trava batalhas contra os índios mundurukus e escapa da destruição da mina pelos helicópteros da Base Aérea do Cachimbo. Retorna a Gurpião, agora no estado de Tocantins, atendendo ao chamado do amor por Leny.

Leny e o Informante é um romance histórico na segunda parte, em que os personagens se intrometem ficticiamente na história da Guerrilha do Araguaia, ilustrando-a ou ocupando lacunas. As outras seções são inteiramente fictícias, mesmo envolvendo fatos ou figuras conhecidos, contemporâneos à obra.

terça-feira, 11 de outubro de 2022

Haicais-sexto volume – Wantuelfer Gonçalves

Na primeira linha das anotações, aparecem, nessa ordem, o número do livro lido, a data em que terminei a leitura, o título do livro e o nome do autor. 


862 (08-10-2022) – Haicais-sexto volume – Wantuelfer Gonçalves

     Este volume de Haicais, do Wantuelfer Gonçalves, é tão bom quanto os outros, é ótimo! São mais de duzentos haicais intitulados e distribuídos em vários temas: os irreverentes, os políticos, os filosóficos, os naturais, os poéticos, os temporais, os musicais, e os românticos. O estilo do autor é tão fácil, claro e conciso que ao leitor podem passar desapercebidas as dificuldades de escrever “um pensamento completo em tercetos de dezessete pés métricos, acrescidas, ainda, pelas rimas alternadas no primeiro e terceiro versos e pelas rimas lineares no segundo”. Mas a complexidade “prolonga-se com a titulação de cada haicai e com a separação deles em blocos de mesmo sentido”.  Wantuelfer Gonçalves vence esses obstáculos com sua grande habilidade poética e nos oferece haicais iluminados como os apresentado abaixo.


FÚRIA

O mar no rochedo

Se arrebenta, mas o enfrenta

Sem demonstrar medo.

 

AMPLEXO

Vem cá meu amor,

Abraça-me e faça-me

Cada vez melhor.

 

BEIJA FLOR

Eu, cuitelinho

Aqui, querendo de ti

Só um beijinho.

 

MERDA

Pássaro pedrês

Fez, sobre o meu fez,

Toda a sua fez. 


CONVITE

Vem logo Maria,

Anda. Estendi na varanda

A rede macia.


segunda-feira, 3 de outubro de 2022

Violeta – Isabel Allende

 Na primeira linha das anotações, aparecem, nessa ordem, o número do livro lido, a data em que terminei a leitura, o título do livro e o nome do autor. 


861 (20-09-2022) – Violeta – Isabel Allende

            Violeta nasceu em 1920 num dia tormentoso com relâmpagos, trovões, tempestade e falta de eletricidade. Nesse ano a gripe espanhola invadiu o Chile dizimando parte de sua população. O pai de Violeta, prevenido, antes que a doença chegasse a Santiago, estocou a casa grande e acolhedora, circundada de jardins e pomares, localizada em área pouco habitada ao sul da capital, com alimentos, tecidos, material escolar e tudo o necessário para a família se manter isolada por muito tempo. E assim ninguém se contaminou. Os homens, irmãos de Violeta, menos José Antônio que ajudava o pai na contabilidade de seus negócios lícitos e ilícitos, foram enviados para a fazenda da família na Patagônia.  A gripe passou, a família de Violeta prosperou até que a bolsa de Nova York se implodiu em 1929 e destruiu a fortuna do clã Del Valle. Transformaram-se em pobres devedores e se abrigaram na casa emprestada de amigos no sul do Chile, na vila de Nahuel, mas longe dos credores. A esse período, Violeta e os parentes chamaram de desterro.

            Violeta casa-se com Fabian, mas logo depois o abandona por um aviador de aeronaves fluviais, Julián, que entre voos regulares fazia viagens anormais, principalmente ao fim da segunda guerra, transportando nazistas, e drogas quando a máfia e os cartéis ganharam poder nos mundos dos negócios e da política. Mas esse homem a fazia sorrir e lhe tocava todos os milímetros e notas de seu desejo sexual.  Teve dois filhos com ele e viveram felizes nos intervalos entre uma viagem e outra até que recebeu os primeiros tapas e soube de suas amantes.  Sofreu por seu filho Juan Martín perseguido pelos militares, do qual ficou sem notícias por longo tempo, pelo desaparecimento de Torito, que protegia seu filho na fuga, e pela morte de sua filha, após dar à luz ao seu neto Camilo.

            Violeta sai da humilhação de ver sua família perseguida pelos cobradores, ajudando José Antônio a criar uma empresa de construção de casas de madeira, cujo sucesso permitiu pagar as dívidas negociáveis. A violência amorosa com Julián acaba quando ela o expulsa de casa e com o distanciamento, mas ela participa dos movimentos para garantir os direitos da mulher e cria uma fundação para proteger as violentadas. Não tem notícias do filho desaparecido e nem de Torito, mas exige dos militares, em fins da ditadura, que os mortos sejam identificados.

            Em 2020, Violeta faz cem anos escondendo-se da nova epidemia no querido “desterro”, a vila de Nahuel, e escrevendo no computador, porque suas mãos não conseguem segurar a caneta, mensagens para o neto Camilo, padre, que ela espera ver unido a sua secretária, Mailén, na fundação, e para o filho Juan Martín residente na Noruega.  

            É um bom livro no ótimo estilo de Isabel Allende que repassa a história do Chile nos Séculos XX e XXI.