O
ENSINO DO PRIMEIRO E SEGUNDO GRAUS TEM SOLUÇÃO
Todo o gasto público com a educação
de primeiro e segundo graus no Brasil só faz os alunos aprenderem vinte por
cento do que lhes é ensinado. Oitenta
por cento dos recursos aplicados e do tempo dos professores e alunos dedicado
ao aprendizado é perdido. Isto acontece
porque tudo que os alunos aprendem lhes é ensinado no quadro negro; não têm
aulas práticas, não têm equipamentos ou laboratórios. Eles aprendem apenas ouvindo o
professor. Os alunos do primeiro e
segundo graus não veem, não manipulam, não trabalham os conceitos, e por isso,
retêm muito pouco do que lhes é ensinado.
O
artigo premiado publicado por Mark E. Campbell, professor do Department of Aeronautics and Astronautics, da
University of Washington, em
1999, no Journal of Engineering Education com o título “Oh, now I get it!” às páginas 380-383 confirma
uma parte do que foi afirmado acima quando reporta o seguinte resultado: alunos
submetidos a aulas apenas expositivas apreendem apenas vinte por cento do
conteúdo oferecido e o que aprendem retêm por muito pouco tempo. Por exemplo, o
que lembramos do conceito de eletricidade que nos foi oferecido no quadro negro
nas aulas de física do segundo grau? Muito pouco ou nada. Já os alunos, que tiveram aulas práticas ou a
oportunidade de ver o conceito acontecendo, isto é, no caso do nosso exemplo, o
processo de geração e armazenamento de eletricidade via pequeno gerador e
bateria, acumulam mais 30 por cento de conhecimento sobre eletricidade e retêm
esse conhecimento por muito mais tempo.
Mas, se ao aluno for oferecida a oportunidade de discutir e trabalhar
com o conceito, isto é, de realizar experimentos e fazer o relatório sobre o
fenômeno ou conceito, ele aprende mais 40 por cento e o recorda pelo resto da
vida. E o melhor, pode aplicá-lo em
exames de acesso ao terceiro grau, em atividades profissionais e em inventos. Mas os estudantes brasileiros do primeiro e
segundo graus recebem apenas aulas expositivas, aprendem apenas por ouvir o que
lhes é ensinado no quadro negro.
A
outra parte da afirmação oferecida no primeiro parágrafo é confirmada pelo
experimento que apresento a seguir. Nos
últimos dez anos, na minha classe de 40 alunos de graduação, nos dez minutos
finais de uma das aulas do semestre, faço sempre as mesmas duas perguntas. A primeira, quem teve no segundo grau, aulas
práticas semanais nas disciplinas: física, química, matemática, biologia e
geografia? A melhor resposta que tive
foi de um aluno em 40; na maioria dos anos nenhum estudante levantou a mão. A segunda pergunta, quem teve no segundo
grau, aulas práticas semanais em, pelo menos, uma das disciplinas: física,
química, matemática, biologia e geografia? Apenas uma vez em dez anos, cinco
alunos levantaram a mão; nos outros anos, eu ficava feliz quando dois alunos
diziam ter tido demonstrações práticas em uma ou outra disciplina. Esses resultados evidenciam que os alunos de
primeiro e segundo graus recebem apenas aulas expositivas e aprendem apenas vinte
por cento de tudo que lhes é ensinado.
Para mim é decepcionante e lamentável confirmar a cada ano que os
problemas no ensino do segundo grau, que eu cursei na década de 1960, continuam
os mesmos quase cinquenta anos depois. Esse
experimento explica também os medíocres resultados obtidos por nossos alunos
nos testes do Program for International Student Assessment (PISA), da OECD,
quando entre 65 países (sistemas de ensino), os estudantes brasileiros são
classificados entre os últimos sexagésimos; melhor apenas que os alunos de dois
ou três países reconhecidamente com péssimo sistema educacional. Esses resultados explicam também o alto grau
de evasão ou a demora na conclusão dos cursos.
Aprender apenas via aulas expositivas é cansativo, dispersivo e
frustrante.
A
solução para a questão descrita acima está em oferecer aos alunos a
oportunidade de ver e trabalhar os conceitos em aulas práticas. Isto requer escolas em tempo integral;
adaptação do currículo escolar; treinamento de professores; adaptação e, até
mesmo, construção de salas de aula e\ou laboratórios para aulas práticas; construção
de novas escolas e remuneração de professores condizente com o maior tempo
dedicado ao ensino.
O
ensino de segundo grau tem outro defeito grave, o de preparar os alunos
exclusivamente para fazerem as provas do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio)
ou dos vestibulares de acesso aos cursos superiores. O aluno, que não consegue acesso a um curso
superior, vê-se constrangido a enfrentar o mercado de trabalho com o pouco que
aprendeu em aulas expositivas sobre português, matemática, química, física,
biologia, geografia e história. Mas, o
mercado de trabalho está interessado em profissionais com treinamento em
informática, em instalação elétrica, em instalação hidráulica, em construção
civil, em técnicas siderúrgicas, metalúrgicas e agrícolas.
Tem-se,
portando, um conflito. Os egressos do
segundo grau não estão preparados para atender as demandas do mercado de
trabalho e o mercado de trabalho demanda muito pouco do conhecimento adquirido
pelos estudantes que concluíram o segundo grau.
A
solução para esse problema está em transformar todas as escolas de segundo grau
em escolas que ofereçam o ensino médio científico simultaneamente com o ensino
profissionalizante. O que essa mudança
requer? Primeiro, escolas de ensino
médio em tempo integral com adequação dos programas analíticos; segundo,
treinamento de professores; terceiro, as comunidades próximas às escolas de
ensino médio, escolhem uma ou mais profissões para serem ensinadas; quarto, construção
de laboratórios, salas de aulas práticas e oficinas para treinamento dos
futuros profissionais; quinto, aquisição de equipamentos; e sexto, contratação
de professores com a qualificação adequada.
Aplicadas
as duas soluções apontadas acima, melhores estudantes do primeiro grau chegarão
ao segundo, e melhores estudantes do ensino médio irão cursar o terceiro
grau. Aqueles estudantes do segundo
grau que não conseguirem acesso a um curso superior ou que não queiram
continuar estudando para obterem um diploma de curso superior terão maiores
oportunidades no mercado de trabalho.
A
aplicação dessas duas soluções requer investimento, coordenação e decisão
administrativa e política, mas protelar a sua aplicação é de todo indesejável. A sociedade brasileira não suporta mais o
argumento de que se investe muito em educação, quando é do conhecimento geral
que se gasta mal. É preciso conclamar a população para um novo programa de
ensino para o país e enfrentar a questão da educação. Ou se faz isso agora, ou
iremos, no futuro, lamentar décadas perdidas por omissão e falta de iniciativa
para resolver um problema cuja solução é conhecida.
Professor
Titular Voluntário da Universidade Federal de Viçosa