Na primeira linha das anotações, aparecem, nessa ordem, o número do livro lido, a data em que terminei a leitura, o título do livro e o nome do auto830 (27-02-2020) – Torto Arado – Itamar Vieira Junior
Esse
livro ganhou o prêmio Leya 2018 concedido ao melhor romance publicado pela
Editora Leya, de Portugal, nesse ano. É
um livro reflexivo, bom de ler e escrito com grande qualidade literária.
A
história se passa no Nordeste brasileiro, na Fazenda Água Negra. Na casa de
barro do colono negro Zeca Chapéu Grande e Salustiana viviam as filhas Bibiana,
de sete anos e Belonísia, um ano mais nova, e Donana, a avó das meninas. As garotas, muito curiosas, esperaram a avó
se afastar para retirar a mala de couro encarquilhada debaixo de sua tarimba.
Reviraram panos velhos, chapéus de palha, e encontraram, no fundo, um punhal
enrolado num pano. A lâmina brilhava polida
na desordem dos guardados. Bibiana viu sua imagem refletida na faca,
insatisfeita colocou-a na boca para sentir seu gosto. Belonísia ansiosa e
apressada puxou o metal, e prendeu-o entre os dentes sentindo o gosto de sangue
da língua cortada da irmã. Bibiana não falou mais, comunicava emitindo algum som e gestos
traduzidos por Belonízia.
As
meninas viram moças, Belonísia se engravida de seu primo Severo e foge de casa
e das humilhações a que sua família era submetida pelo capataz dos proprietários
ausentes, retirando-lhes mais alimentos do que o tradicionalmente acertado e
aceito. Severo é assassinado por se
rebelar contra a exploração a que os empregados eram submetidos. O autor reflete
sobre as relações familiares. Ora uma filha era expulsa de casa por seu
relacionamento amoroso, ora aceita, inicialmente a contragosto, mas com carinho,
após a chegada do neto. A seca sempre presente na natureza se reflete nas vidas
secas dos casais, o que faz Bibiana não chorar no enterro do companheiro com quem
vivia há quase um ano; na dureza com que espeta com o punhal que decepara sua
língua o pescoço do marido bêbado que batia na mulher, sua amiga. E como recebe agradecida, como terra
ressequida, o carinho da amiga que lhe alisava os cabelos enquanto esperavam
pela volta do marido que chegou manso, pesaroso dos maus tratos impostos à
esposa. O sincretismo religioso é vivido nas festas de jarê, nos orixás e é uma
força extraordinária e ancestral para esses descendentes de escravos.