O
ENSINO FUNDAMENTAL E MÉDIO TEM SOLUÇÃO
Erly Cardoso Teixeira
Professor Titular da Universidade Federal de Viçosa,
e-mail: teixeira@ufv.br
Todo o gasto público com o ensino
fundamental e médio no Brasil só faz os alunos aprender, no máximo, 10% do que lhes é
ensinado. Noventa
por cento (90%) dos recursos aplicados e do tempo dos professores e alunos
dedicado ao aprendizado são perdidos. Isto acontece porque, na quase totalidade
das escolas, tudo o que os alunos aprendem lhes é ensinado no quadro negro: eles
não têm aulas práticas e não há equipamentos ou laboratórios. Eles aprendem apenas ouvindo o
professor. Os alunos da educação básica
não veem, não manipulam, não trabalham os conceitos, portanto, retêm muito
pouco do que lhes é ensinado.
Isto é o que se depreende quando se lê as
publicações da literatura sobre a “Pirâmide de Retenção do Aprendizado”. Os artigos
publicados, tratando do tema aprendizado nas escolas, informam que: alunos
submetidos a aulas apenas expositivas aprendem, quando muito, 10% do conteúdo
oferecido e o que aprendem, eles retêm por muito pouco tempo. Já os
alunos, que tiveram aulas práticas ou a oportunidade de ver o conceito
acontecendo, acumulam 30% de conhecimento e retêm esse conhecimento por muito
mais tempo. Mas, se ao aluno for oferecida a oportunidade de discutir e
trabalhar com o conceito, isto é, de realizar experimentos, ele aprende 75% do
conteúdo, e o recorda pelo resto da vida. E o melhor, pode aplicá-lo em exames
de acesso ao ensino superior, em atividades
profissionais e em inovações.
Nos
últimos dez anos, na minha classe de 40 alunos de graduação, nos dez minutos
finais de uma das aulas do semestre, faço sempre as mesmas duas perguntas. A primeira:
quem teve, no segundo grau, aulas práticas semanais no conjunto das disciplinas
- física, química, matemática, biologia e
geografia?
A melhor resposta que tive foi somente de um aluno entre os 40. A
segunda pergunta é: quem teve, no segundo grau, aulas práticas semanais em,
pelo menos, uma das disciplinas - física, química, matemática, biologia e
geografia?
Apenas uma vez, em dez anos, cinco alunos levantaram a mão. Nos outros
anos, eu ficava feliz quando dois alunos diziam ter tido demonstrações práticas
em uma ou outra disciplina.
É
decepcionante e lamentável confirmar, a cada ano, que os problemas no ensino médio,
que eu vivenciei na década de 1960, continuam os mesmos quase cinquenta anos
depois. Essa constatação explica também os
medíocres resultados obtidos por nossos alunos nos testes do Program for
International Student Assessment (PISA), da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico
(OCDE). Entre 65 países (sistemas de ensino), os estudantes
brasileiros são classificados entre os últimos quinquagésimos, melhor apenas
que os alunos de uns poucos países reconhecidamente com péssimo sistema
educacional. Na classificação publicada pelo the Economist Intelligence Unit,
entre 40 países, o Brasil ficou em 38o lugar. Esses resultados explicam também o alto grau
de evasão ou a demora na conclusão dos cursos. Aprender apenas via aulas
expositivas é cansativo, dispersivo e frustrante.
A
solução proposta está em oferecer aos alunos a oportunidade de ver e trabalhar
os conceitos em aulas práticas. Isto requer escolas em tempo integral;
adaptação do currículo escolar; treinamento de professores; adaptação e, até
mesmo, construção de salas de aula e\ou laboratórios para aulas práticas;
construção de novas escolas e remuneração de professores condizente com o maior
tempo dedicado ao ensino.
O
ensino médio tem outro defeito grave: o de preparar os alunos exclusivamente
para fazer as provas do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) ou dos
vestibulares de acesso aos cursos superiores.
O aluno que não consegue acesso a um curso superior vê-se constrangido a
enfrentar o mercado de trabalho com o pouco que aprendeu em aulas expositivas.
Mas o mercado de trabalho está interessado em profissionais com treinamento em
informática, em instalação elétrica, em instalação hidráulica, em construção
civil, em técnicas siderúrgicas, metalúrgicas e agrícolas, entre outras.
Tem-se,
portanto, um conflito. Os egressos do ensino médio não estão preparados para
atender as demandas do mercado de trabalho. Por sua vez, o mercado de trabalho demanda
muito pouco do conhecimento teórico e de baixa aplicabilidade adquirido pelos
estudantes que concluíram o ensino médio.
A
solução para esse problema está em fazer com que todas as escolas de segundo grau ofereçam o ensino
médio científico simultaneamente com o ensino
profissionalizante. O que essa mudança requer?
Primeiro, escolas de ensino médio em tempo integral com adequação dos
programas analíticos; segundo, treinamento de professores; terceiro, as
comunidades próximas às escolas de ensino médio escolherem uma ou mais
profissões para serem ensinadas; quarto, construção de laboratórios, salas de
aulas práticas e oficinas para treinamento dos futuros profissionais; quinto,
aquisição de equipamentos; e sexto, contratação de professores com a
qualificação adequada.
Aplicadas
as duas soluções apontadas acima: a) aulas práticas e b) segundo grau
científico e profissionalizante, melhores estudantes do ensino fundamental
chegarão ao ensino médio, e melhores estudantes do ensino médio irão cursar o terceiro
grau. Aqueles estudantes do ensino
médio que não conseguirem acesso a um curso superior ou que não queiram
continuar estudando terão, contudo, maiores oportunidades no mercado de
trabalho.
A
aplicação das duas soluções sugeridas requer investimento, coordenação e
decisão administrativa e política. Mas
isto deve servir como estímulo e não de desculpa para protelar a aplicação de
medidas que realmente melhorem a educação no Brasil. A sociedade brasileira vê,
inconformada, o Ministério da Educação e as Secretarias Estaduais de Educação
receberem os resultados humilhantes do péssimo desempenho da educação no Brasil,
e não se posicionarem lançando e executando um programa inovador que resolva os
problemas dos ensinos fundamental e médio. Ou se faz isso agora, ou iremos, no futuro,
lamentar décadas perdidas por omissão e falta de iniciativa para resolver um
problema cuja solução é conhecida.

