terça-feira, 28 de junho de 2022

O avesso da pele – Jeferson Tenório

 Na primeira linha das anotações, aparecem, nessa ordem, o número do livro lido, a data em que terminei a leitura, o título do livro e o nome do autor. 

857 (26-06-2022) – O avesso da pele – Jeferson Tenório

            Este livro foi o vencedor do prêmio Jabuti de 2021, é bem escrito, é reflexivo, é introspectivo.  O filho recorda o pai negro, professor do ensino público fundamental e médio, morto há algum tempo. Descreve as diversas passagens de discriminação racial vividas pelo pai, o seu relacionamento difícil com a esposa, as dificuldades de ministrar aulas para alunos desmotivados, e o seus sentimentos de humilhação, de cansaço, de desamor e de frustação que se escondem atrás da pele. Narra a alegria do pai ao conseguir atrair a atenção dos alunos para a história de Raskólnicov, personagem principal do romance Crime e Castigo, de Dostoiévski. A última abordagem policial que o pai sofreu é mais detalhada, pois o autor relata a vivência do policial que vê o colega amigo ser assassinado sem que os autores do crime sejam encontrados, e é ele quem vai revistar o pai do narrador na saída do colégio, num bairro pobre de Porto Alegre. 

A leitura é pouco atraente até a metade do livro, depois é instigante.


segunda-feira, 13 de junho de 2022

Um Ponto de Fuga – Marília Nacif Barbosa

 Na primeira linha das anotações, aparecem, nessa ordem, o número do livro lido, a data em que terminei a leitura, o título do livro e o nome do autor. 


856 (13-06-2022) – Um Ponto de Fuga – Marília Nacif Barbosa

 

            O livro impressiona, primeiro, pelo nome da autora Marília Nacif Barbosa, encimando a capa muito bonita, muito bem desenhada: uma passagem ladeada por muros seculares envelhecidos pela neblina, atravessando um vale oculto em densa névoa. Depois, os poemas encantam pela sensibilidade da autora como nos versos abaixo.

 

           

 

 

Eternidade


Apenas um instante,

um minuto, nada mais...

Se era uma tarde fria,

Se era noite ou se era dia,

não me lembrarei jamais...

Você falava? O que dizia?

nada, eu não mais ouvia...

Naquele momento estranho,

houve um milagre

e houve um sonho.

 

Depois do sonho, a plenitude.

Depois do milagre, a eternidade.

 

Outros poemas belíssimos são:

“Numa Noite Fria”, página 32;

“Aquela Palavra”, página 38;

“Estrela Fugidia”, página 40;

“A Mansão”, página 52;

“A Um Deus”, página 55;

“Carnaval Espiritual”, página 57.

 

É muito bom ler e reler esse livro!      

quinta-feira, 9 de junho de 2022

Boa Ventura! A corrida do ouro no Brasil, 1697-1810 – Lucas Figueiredo

 Na primeira linha das anotações, aparecem, nessa ordem, o número do livro lido, a data em que terminei a leitura, o título do livro e o nome do autor. 

855 (06-05-2022) – Boa Ventura! A corrida do ouro no Brasil, 1697-1810 – Lucas Figueiredo

            Enquanto os espanhóis raspavam o ouro dos monumentos astecas e incas e achavam a montanha de prata de Potosi em 1545, os portugueses e brasileiros entravam Brasil adentro escravizando índios e buscando ouro. As expedições partindo de Pernambuco, da Bahia, do Espírito Santo, do Rio de Janeiro e principalmente de São Paulo alargaram as fronteiras do Brasil e encontraram montanhas de ouro nos córregos e terrenos de aluvião, inicialmente na capitania de Minas Gerais na década de 1690, depois em Mato Grosso, Rondônia e Goiás.

            Lucas Figueiredo faz um trabalho minucioso, detalhado e extensamente documentado da corrida do ouro, segurando o leitor atento e curioso às narrativas empolgantes da descoberta da prata em Potosi; de pouco ouro em São Paulo, em 1562; de muito ouro em Minas Gerais, em 1693; da Guerra dos Emboabas (1706-1709) em que os mineradores de Minas Gerais expulsaram os paulistas; da criação da capitania de Minas Gerais, em 1720; das monções, grandes expedições levando, às vezes, mais de mil pessoas em viagens de três a sete meses em direção às minas da região de Cuiabá; os enfrentamentos com os índios Guaicurus e Paiaguás; as guerras travadas entre os reinos africanos de Daomé, Iguira, Wassa, Akien e Adansi, em que os prisioneiros derrotados eram vendidos como escravos na fortaleza de São João Batista aos traficantes portugueses e brasileiros; o transporte dos escravos nos “tumbeiros”, ou navios negreiros, carregados no porto de Ouidá.

            Lucas Figueiredo revela os horrores do Terremoto de Lisboa, 9 graus na escala Richter, um dos mais mortíferos da história. Era o dia de Todos os Santos, 1o. de novembro de 1755, as igrejas estavam cheias às 9:40 horas da manhã quando o abalo aconteceu. Os que sobreviveram ao solavanco correram para o porto e áreas descobertas, viram as águas do Rio Tejo secarem e depois o tsunami, ondas de vinte metros de altura avançar rio adentro, inundar 250 metros de Lisboa arrastando barcos, casas, destroços, carruagens, vivos e mortos. Na vazante carregaram tudo de volta. Nos sete minutos que durou o fenômeno 15.000 pessoas morreram. Os incêndios provocados, em grande parte pelas velas acesas nas igrejas e casas, lançavam labaredas avistadas a quilômetros pelo rei d. José que estava com a família em Belém. Lisboa ardeu durante seis dias. Completando a desgraça não faltaram os saqueadores, assaltantes, estupradores e assassinos. “Quem escapou à ira da natureza e à sanha dos homens teve de lutar depois contra a fome e a peste. E contra o medo”.

            A derrama era a cobrança da parte do quinto, que a partir de 1750 fora estabelecido em 100 arrobas (1474 quilos) de ouro, que não fora paga pela capitania em razão da queda na produção.  O visconde de Barbacena, Luís Antônio Furtado de Mendonça, assumiu o governo de Minas Gerais em julho de 1788 com “ordens de cobrar os quintos atrasados que somavam a exorbitância de 8,8 toneladas. Vinha aí mais uma derrama, possivelmente a pior de todas”. A reação a essa derrama até culminar na Inconfidência Mineira, em 1789, no desterro para a África dos conjurados que sobreviveram aos assassinatos e à três anos de prisão, e ao enforcamento de Tiradentes, em 1792, é brilhantemente descrita. “O martírio de Tiradentes certamente ensinou algo aos mineiros, mas também à Coroa.  Temendo novas revoltas, a derrama foi cancelada”.

            As relações de Portugal, comprador inconsequente, com a Inglaterra, vendedora agressiva, transferiram para esse país, apenas em 1738, 60% do ouro produzido no Brasil, 8 toneladas. Por outro lado, garantiu segurança à fuga da família real, chefiada por d. João VI, para o Brasil em 1808.

            O livro é muito bem escrito e repleto de curiosidades que conquistam o leitor desde as primeiras páginas.  855 (06-05-2022) – Boa Ventura! A corrida do ouro no Brasil, 1697-1810 – Lucas Figueiredo

 

            Enquanto os espanhóis raspavam o ouro dos monumentos astecas e incas e achavam a montanha de prata de Potosi em 1545, os portugueses e brasileiros entravam Brasil adentro escravizando índios e buscando ouro. As expedições partindo de Pernambuco, da Bahia, do Espírito Santo, do Rio de Janeiro e principalmente de São Paulo alargaram as fronteiras do Brasil e encontraram montanhas de ouro nos córregos e terrenos de aluvião, inicialmente na capitania de Minas Gerais na década de 1690, depois em Mato Grosso, Rondônia e Goiás.

            Lucas Figueiredo faz um trabalho minucioso, detalhado e extensamente documentado da corrida do ouro, segurando o leitor atento e curioso às narrativas empolgantes da descoberta da prata em Potosi; de pouco ouro em São Paulo, em 1562; de muito ouro em Minas Gerais, em 1693; da Guerra dos Emboabas (1706-1709) em que os mineradores de Minas Gerais expulsaram os paulistas; da criação da capitania de Minas Gerais, em 1720; das monções, grandes expedições levando, às vezes, mais de mil pessoas em viagens de três a sete meses em direção às minas da região de Cuiabá; os enfrentamentos com os índios Guaicurus e Paiaguás; as guerras travadas entre os reinos africanos de Daomé, Iguira, Wassa, Akien e Adansi, em que os prisioneiros derrotados eram vendidos como escravos na fortaleza de São João Batista aos traficantes portugueses e brasileiros; o transporte dos escravos nos “tumbeiros”, ou navios negreiros, carregados no porto de Ouidá.

            Lucas Figueiredo revela os horrores do Terremoto de Lisboa, 9 graus na escala Richter, um dos mais mortíferos da história. Era o dia de Todos os Santos, 1o. de novembro de 1755, as igrejas estavam cheias às 9:40 horas da manhã quando o abalo aconteceu. Os que sobreviveram ao solavanco correram para o porto e áreas descobertas, viram as águas do Rio Tejo secarem e depois o tsunami, ondas de vinte metros de altura avançar rio adentro, inundar 250 metros de Lisboa arrastando barcos, casas, destroços, carruagens, vivos e mortos. Na vazante carregaram tudo de volta. Nos sete minutos que durou o fenômeno 15.000 pessoas morreram. Os incêndios provocados, em grande parte pelas velas acesas nas igrejas e casas, lançavam labaredas avistadas a quilômetros pelo rei d. José que estava com a família em Belém. Lisboa ardeu durante seis dias. Completando a desgraça não faltaram os saqueadores, assaltantes, estupradores e assassinos. “Quem escapou à ira da natureza e à sanha dos homens teve de lutar depois contra a fome e a peste. E contra o medo”.

            A derrama era a cobrança da parte do quinto, que a partir de 1750 fora estabelecido em 100 arrobas (1474 quilos) de ouro, que não fora paga pela capitania em razão da queda na produção.  O visconde de Barbacena, Luís Antônio Furtado de Mendonça, assumiu o governo de Minas Gerais em julho de 1788 com “ordens de cobrar os quintos atrasados que somavam a exorbitância de 8,8 toneladas. Vinha aí mais uma derrama, possivelmente a pior de todas”. A reação a essa derrama até culminar na Inconfidência Mineira, em 1789, no desterro para a África dos conjurados que sobreviveram aos assassinatos e à três anos de prisão, e ao enforcamento de Tiradentes, em 1792, é brilhantemente descrita. “O martírio de Tiradentes certamente ensinou algo aos mineiros, mas também à Coroa.  Temendo novas revoltas, a derrama foi cancelada”.

            As relações de Portugal, comprador inconsequente, com a Inglaterra, vendedora agressiva, transferiram para esse país, apenas em 1738, 60% do ouro produzido no Brasil, 8 toneladas. Por outro lado, garantiu segurança à fuga da família real, chefiada por d. João VI, para o Brasil em 1808.

            O livro é muito bem escrito e repleto de curiosidades que conquistam o leitor desde as primeiras páginas.  

terça-feira, 7 de junho de 2022

Cerveja Amarga – Rebeca Maia

Na primeira linha das anotações, aparecem, nessa ordem, o número do livro lido, a data em que terminei a leitura, o título do livro e o nome do autor. 


                                                            854 (01-05-2022) – Cerveja Amarga – Rebeca Maia

   

       Este é um livro pequeno de contos curtos sobre um grande tema, o amor. Esta é uma obra de contos pequenos, inteligentes e gostosos de ler. São onze contos tão diferentes como o amor pode ser. “Em ‘Cerveja Amarga’ as personagens passam por várias circunstâncias de amor, numa arquitetura experiencial que conjuga o amor por si, pelo mundo, pelo ser amado e, ao mesmo tempo, a respectiva decepção e repulsa por estas mesmas construções amorosas”.  Parecem-me duras essas últimas palavras do texto extraído do prefácio, por isso conto a historinha abaixo.

Comprei o livro no 2o. Feliv, era noite, fazia frio e as luzes estavam apagadas, exceto para palestra. Parei no estande da Rebeca Maia; no lusco-fusco, quase não a vi, folheei um dos livros e, porque me esqueci dos óculos, só consegui ler a palavra amor no prefácio.  Ela se aproximou, protegida por uma boina e um cachecol. Seu rosto era bonito e muito simpático; sorria.  Comprei o livro e pelo pequeno diálogo exigido pelo pagamento e pela dedicatória, soube que este é seu primeiro livro e que está escrevendo outro. Espero revê-la no próximo Feliv com outra obra tão boa quanto “Cerveja Amarga”.