sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Memórias de Meu Pai, Um Pracinha - Ricardo Pugialli

 Na primeira linha das anotações, aparecem, nessa ordem, o número do livro lido, a data em que terminei a leitura, o título do livro e o nome do autor. 


905 (03-12-2025) – Memórias de Meu Pai, Um Pracinha, Ricardo Pugialli, Rio de Janeiro, RJ, 2013. 218 p.

É um livro muito bom! Inicialmente o autor resume, no subtítulo “O Mundo”, o Século XX até a eclosão da II Guerra Mundial. Discorre sobre Mussolini e o fascismo; Hitler e o nazismo; a Espanha pós I Guerra Mundial, a queda da monarquia, a Guerra Civil Espanhola e a “neutralidade” pró nazista da Espanha de Franco. Situa o Brasil na crise econômica da década de 1920 e os acontecimentos que se seguiram até a criação, em 1937, do “Estado Novo” ou da “Ditadura Vargas”.

Na sequência, o autor relaciona, a partir de setembro de 1939, todos os acontecimentos relacionados à II Guerra Mundial. Assim, no dia 03 de setembro o Reino Unido, incluindo Austrália e Nova Zelândia, mais a França declaram guerra à Alemanha. Nesse mesmo dia principia a Batalha do Atlântico com submarinos alemães torpedeando navios ingleses. Aponta cronologicamente os navios brasileiros afundados pelos U-Boots, em alemão, ou U-Boats, em inglês, com os respectivos números. O Brasil declara guerra à Alemanha e Itália no dia 22 de agosto de 1942, no dia 15 de março de 1943 é criada a Força Expedicionária Brasileira.

As memórias do pai do autor do livro, Francisco Jayme Domingues Júnior, são apresentadas desde a sua convocação em fevereiro de 1943 até o seu regresso da Itália no dia 3 de outubro de 1945. Conta do treinamento na 4a Bateria Independente de Artilharia de Costa, no Forte Duque de Caxias, no Leme e das brigas de rua com os expedicionários acantonados na Vila Militar. O primeiro escalão embarcou no dia 02 de julho de 1944 no navio General Mann e chegou a Nápoles em 16 de julho. Francisco Jayme embarcou com o quarto escalão no dia 23 de novembro de 1944 e aportou em Nápoles no dia 07 de dezembro. Conta das brigas no navio, da terrível viagem de Nápoles até Livorno nas barcaças para desembarque de infantaria (LCI), de sua passagem pela artilharia, depois pela infantaria e finalmente no correio. Relata o pouco treinamento, o acampamento, os confrontos, as patrulhas e as saídas nas folgas. Relata o ferimento na perna por tiro de metralhadora alemã, a Lurdinha, a passagem pelo hospital e o retorno à frente de batalha.

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quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Memórias de Soldados – a História da Força Expedicionária Brasileira

 Na primeira linha das anotações, aparecem, nessa ordem, o número do livro lido, a data em que terminei a leitura, o título do livro e o nome do autor.  


904 (23-11-2025) – Memórias de Soldados – a História da Força Expedicionária Brasileira – Marcos Antonio Costa. São Paulo, SP, Clube de Autores, 2016. 292 p.

 

É um livro muito bem planejado e escrito, repleto de informações relevantes sobre a participação da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na II Guerra Mundial.

O autor, um historiador, entrecruza uma vastíssima coleção de documentos com a história contada por um pequeno grupo de combatentes, doze, saídos da Zona da Mata mineira para apresentar a experiência de guerra da FEB na liberação da Itália dos fascistas e nazistas na II Guerra Mundial. A escolha dos entrevistados recaiu na diversidade das funções executadas: soldados da infantaria e da artilharia, cozinheiro, enfermeiro, sepultador, e instalador de linhas de comunicação entre os comandantes da artilharia e da infantaria e os postos de observação.

Este livro, com o entrecruzamento de história e memória, dá voz, humaniza e ilustra a participação brasileira nos bastidores e nos combates dessa guerra. Foram enviados à Itália 25.700 soldados e oficiais, o Brasil foi o único país latino-americano a colaborar com o esforço de guerra aliado para enfrentar e derrotar a brutalidade nazifascista. A FEB enfrentou dez divisões alemãs e as derrotou, libertou mais de quarenta localidades e colaborou com os aliados para evitar a fuga dos alemães pela Áustria para reforçar a combalida defesa nazista, fez 20.537 prisioneiros, entre eles dois generais e 892 oficiais. Teve 1577 feridos e 487 acidentados em combate e enterrou 442 praças e treze oficiais, além de oito oficiais da FAB.

 O esforço de guerra brasileiro teve 1.900 soldados mortos, sendo 455 da FEB, 8 da Força Área Brasileira (FAB) e aproximadamente 1.400 na marinha mercante e militar.

O livro é muito bom de ler e é, talvez, o que apresenta com mais realidade a campanha da FEB na Itália.

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domingo, 23 de novembro de 2025

Bordaduras do amor – Amarísio da Silva Araújo

 Na primeira linha das anotações, aparecem, nessa ordem, o número do livro lido, a data em que terminei a leitura, o título do livro e o nome do autor. 


903 (06-11-2025) – Bordaduras do amor – Amarísio da Silva Araújo. Viçosa, MG, Lobo-guará Editora, 2025. 100 p.

É um livro encantador de poemas de amor nas suas diversas expressões: erótico, platônico, filosófico, reflexivo, sentimento e, principalmente, amor vivido.

A maioria dos poemas mistura estrofes brancas, sem métrica fixa, mas posicionando muito bem a rima, com versos livres em que se a rima aparece é pela sensibilidade do poeta.

Muito importante, os poemas são de leitura fácil e gostosa como os apresentados abaixo.


 

                                          Pertencimento

                                          E fica tudo dito assim:

                                         eu logo soube, meu amor,

                                         que entrava no seu corpo

                                          para tê-la dentro de mim.

 

                                         Sem título

                                         Houve um tempo em que

                                         tudo era fogo

                                          e, abraçados, afagavam-se.

 

                                          Hoje, tudo se fez água

                                          e, apartados,

                                          afogam-se em mágoas.

                       

                                         Bordaduras do amor

                                         O amor é costuragem:

                                         riscadura de caminhos,

                                         traços finos pontilhados,

                                         rascunho para bordado.


                                         Vez em quando falta jeito

                                          E a agulha espeta o peito.


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quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Meninos que brincaram na Lua – Fernando Molica

 Na primeira linha das anotações, aparecem, nessa ordem, o número do livro lido, a data em que terminei a leitura, o título do livro e o nome do autor. 


902 (03-11-2025) – Meninos que brincaram na Lua – Fernando Molica. 2. ed. Rio de Janeiro: Tinta Negra Edições, 2025. 200 p.

            É um livro de ótimas crônicas organizadas sob os títulos: Cidade de Babel, Força que levanta bailarinos, Vasto mundo, País e fingimento, Cheiro num livro, Sem hora marcada, e Bola, brinquedo essencial. A leitura é fácil, muito agradável, e segura o leitor da primeira à última página. O escritor é muito articulado, tem vasto vocabulário, pensamento amadurecido sobre os temas, e um estilo marcante.

            Apenas na crônica “Canções nas esquinas das nossas histórias”, texto muito bem escrito, em que o autor revela sua tendência política, cabe algum reparo. Fernando Molica diz que o show do Lô Borges, de 2018, na véspera do segundo turno das eleições presidenciais, que ele acreditava seria vencida pela direita, soava como um réquiem à democracia.

“Estava evidente que a eleição seria vencida por um deputado que tinha um torturador como herói, defendia a ditadura implantada em 1964, propusera guerra civil..., pregara o fuzilamento da “petralhada”, comparara parentes de desaparecidos a cães que procuram ossos, e que tivera sua passagem pelo exército marcada pela indisciplina”. Ele não diz, mas poderia acrescentar, que pairava sobre o ex-capitão e sobre os dois filhos deputados a acusação de participarem das “rachadinhas” corruptas da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ).

Tudo isso é verdade conhecida que deve ser exposta. Mas, aqui cabe a ressalva.

O autor se apresentaria mais reflexivo, externando que o absurdo de os eleitores entronizarem esse candidato se devia à montagem pelo Partido dos Trabalhadores de um formidável sistema de corrupção que levou ao assassinato do prefeito de Santo André e às mortes misteriosas de outros prefeitos corruptos do partido, que esse esquema subornou deputados e, posteriormente encheu o caixa dessa facção, extorquindo a Petrobrás em bilhões de dólares e dilapidando fundos de pensão.

No gargarejo ou na confortável poltrona em que se instalara no show do Lô Borges, esse cronista não ignorava os investimentos, reclamados pelos brasileiros mais pobres, em saneamento, combate a doenças e em infraestrutura que foram feitos no exterior em ditaduras apaniguadas. Também não ignorava a incompetência administrativa que deixou a inflação atingir mais de dez por cento e o crescimento econômico cair três e meio porcento em cada um dos últimos dois anos do governo Dilma.

Conhecendo esse comportamento da esquerda e eximindo-se do viés político, Fernando Molica diria que, para a maioria da audiência, o show de Lô Borges era um grito de aleluia para a democracia, a economia e a administração do país.

O livro é muito bom, vale a pena a leitura, as outras crônicas são irretocáveis.


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segunda-feira, 27 de outubro de 2025

RoBerTo contra o mundo – Durval Prata

 Na primeira linha das anotações, aparecem, nessa ordem, o número do livro lido, a data em que terminei a leitura, o título do livro e o nome do autor.                               



901 (23-10-2025) –
RoBerTo contra o mundo – Durval Prata. Editora Ágora da Ilha, Rio de Janeiro, 2001. 84 p.

            O diário de guerra do expedicionário Durval Prata conta concisamente como os soldados brasileiros libertaram a Itália do exército alemão. Ele inicia o diário embarcado no grande navio americano General Mann com mais de cinco mil combatentes, viajando sem destino definido. O navio zarpou no dia dois de julho de 1944. O receio dos submarinos alemães e as ondas do mar causavam enjoos incontroláveis em grande parte da tropa. Só após atravessarem o Estreito de Gibraltar, souberam que iriam desembarcar em Nápoles. Na chegada, no dia 16 de julho, a bela vista do Vesúvio, vulcão ativo lançando uma rala nuvem de fumaça branca, escondia uma cidade em ruínas e um povo maltrapilho, esfarrapado e esfaimado, pedindo comida.

            Viajando de metrô e a pé, passaram por acampamentos de tropas americanas, inglesas, canadenses, australianas e indianas até chegarem à base do vulcão Astrônia, extinto, local do acampamento brasileiro. Ver a bandeira brasileira tremulando alto trouxe grande orgulho à tropa, como se tivesse vencido uma batalha.

            Nos dias seguintes, o toque de alvorada era seguido do troar dos canhões da artilharia em exercício.  “Durante a noite assistimos a um exercício de fogo antiaéreo que posso chamar de infernal: às 2 horas da madrugada todas as lâmpadas se apagaram, deixando a cidade às escuras. Uma densa neblina artificial foi lançada ao ar, escurecendo a própria lua cheia. Nesse momento, as artilharias de terra e mar abriram fogo, e balas tracejantes de todas as cores cortavam o céu em um espetáculo verdadeiramente deslumbrante. Alguns navios vomitavam tal volume de fogo que pareciam eles próprios estarem em chamas”.

            “Estamos acampados em Vada, subúrbio de Livorno, região próxima de Pisa onde os alemães ainda resistem. Alvorada às 5 horas. Seguimos em viaturas para Riparbela. Lá, a bateria de canhões tomou posição e levamos os cabos telefônicos até o observatório, distante 11 quilômetros, a pé. Minha estréia nos campos italianos foi pesada. Voltamos às 22 horas, cansados, sujos e sem jantar. Isso é a guerra!”

            A artilharia troava seus canhões desorganizando a defesa alemã. No ar a FAB atirava bombas e varria com fogo de napalm as posições tedescas. Uma pequena pausa no canhonaço era seguida pelo avanço da infantaria aos berros abafados pelas rajadas de metralhadoras. Os gritos dos feridos eram ignorados no avanço desenfreado caçando e derrubando os alemães até a limpeza das posições. Os padioleiros apareciam socorrendo os feridos e depois recolhendo os mortos para o sepultamento.

“Saí às 17horas para dar apoio a um batalhão de infantaria. Durante toda a noite estendi uma linha telefônica entre a nossa artilharia e o posto de comando da infantaria. Foi um trabalho árduo, e quando terminamos o sol já estava raiando e o café da manhã sendo servido”.

“Passamos o domingo atirando muito, dando apoio à infantaria. Durante a noite toda, de hora em hora, ouvia-se o rugir dos nossos canhões. No dia 20 de fevereiro, atiramos muito com os canhões apontados para Monte Castelo, e, após o intenso bombardeio, a nossa infantaria finalmente ocupou o grande obstáculo para Bolonha”.

            Durval Prata conta dos avanços dos batalhões da FEB liberando mais de quarenta localidades e devolvendo-as aos italianos, dos desfiles com os prisioneiros teutos e das manifestações de agradecimento das populações: palmas, abraços, beijos, lágrimas de gratidão.

Conta do tratamento dos oficiais aos soldados. “Ao chegar ao acampamento soube de outro feito digno de um vândalo: em um desentendimento entre um soldado e dois tenentes, o primeiro-tenente Siomir Porto sacou a pistola enquanto o tenente Donald agredia o soldado. Este queixou-se ao coronel-comandante, que lhe perguntou se queria apanhar mais. Infelizmente, assim foi. Quando eu ainda estava no Brasil, veio à público a notícia de que o general Patton havia sido rebaixado por esbofetear um soldado. Hoje, dia 4 de setembro de 1944, um coronel brasileiro esbofeteou um cabo e ficou impune”.  

A recepção a cada um dos cinco escalões de pracinhas retornando ao Brasil foi apoteótica nos desfiles na Avenida Rio Branco. Música nos alto-falantes pendurados nos postes e árvores, bandeiras agitadas e flores, a alegria e a euforia da população que se comprimia para cumprimentar, bater continência, abraçar, beijar, arrancar o distintivo da cobra fumando das fardas e, mais tarde, festas.

 “Na Avenida Rodrigues Alves, passamos por uma fila de funcionários da LBA, para recebermos doces, sanduíches, Coca-cola, refrescos, cigarros etc...”

“Na Itália vimos seres humanos comerem restos de alimentos deixados por nós, e aqui também. Vimos crianças maltrapilhas pedindo os nossos sanduíches e até restos apanharam. Enfim, tinha que acontecer algo para estragar a apoteose da chegada, coisas da vida, caprichos do destino...”

“Às 16 horas entramos desfilando na Avenida Rio Branco. Posso dizer que o que se passou foi algo indescritível. Percorremos a Avenida Rio Branco até o antigo quartel do Regimento de Artilharia Antiaérea de Deodoro. Eram palmas, flores, vivas, risos e outras demonstrações de alegria e gratidão. Por volta das 19 horas chegamos em Deodoro, e, depois da entrega do material e do armamento, fomos dispensados. Ao sair, tive o prazer de encontrar com um grupo de amigos, que me levaram de carro para minha residência”.

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sexta-feira, 17 de outubro de 2025

Trincheira Tropical - A Segunda Guerra Mundial no Rio - Ruy Castro

 Na primeira linha das anotações, aparecem, nessa ordem, o número do livro lido, a data em que terminei a leitura, o título do livro e o nome do autor.


  900 (23-09-2025) – Trincheira Tropical - A Segunda Guerra Mundial no Rio - Ruy Castro. Companhia das Letras, São Paulo, 2025.  649 p.

            É um livro primorosamente bem escrito, bem organizado e detalhado. Não ficam perguntas sem respostas, tudo é claramente apresentado. E, muito importante, é ótimo de ler.

            A narrativa inicia-se em 1934 discutindo o fascismo brasileiro comandado pelos camisas-verdes da Ação Integralista Brasileira (AIB), movimento criado por Plínio Salgado em 1932.

            Mas em janeiro de 1935 surge a Aliança Nacional Libertadora (ANL), uma força para contrapor à AIB, tendo como presidente de honra Luiz Carlos Prestes exilado em Moscou. Devido à popularidade alcançada pela ANL e ao risco do nome Prestes, Getúlio Vargas decretou a ilegalidade da organização em 11 de julho de 1935. Filinto Müller e seus agentes infiltrados promoveram sua extinção. A ditadura Vargas, conhecida a partir de 1937 como Estado Novo, podia tudo. Os remanescentes da ANL continuaram a agir como um aparelho clandestino, uma frente do Partido Comunista Brasileiro (PCB), fundado em 25 de março de 1922, agora comandada física e efetivamente por Prestes que retornara ao Brasil. A Intentona Comunista de 1935 é sufocada em poucas horas e leva Prestes e outros membros do partido para a cadeia e a tortura. Olga Benario, a companheira de Prestes é deportada, grávida de sete meses, em 23 de setembro de 1936, para morrer num campo de concentração nazista, em 1942.

            O golpe de estado de 10 de novembro de 1937 instala a ditadura Vargas e o Estado Novo.

            A Itália, assim como a Alemanha e o Japão, vivia um período de euforia. Era o todo poderoso Reich. Na Alemanha os judeus eram perseguidos, no Brasil, a Circular 1127 de 7 de junho de 1937, barrava a entrada de indivíduos de “origem semítica”. Oswaldo Aranha, chanceler desde 15 de março de 1938, relaxou as dificuldades imigratórias. Brasileiros que se destacaram na conceção de vistos aos judeus: Aracy Moebius de Carvalho, João Guimarães Rosa, Luiz Martins de Souza Dantas.

            Getúlio Vargas jogava com os Estados Unidos e com a Alemanha para atingir duas metas: a construção de uma usina siderúrgica e a modernização do Exército brasileiro.

Em setembro de 1940, os Estados Unidos, reconhecendo a posição estratégica do Brasil, assinaram um acordo prometendo ajuda técnica e financiamento para o estabelecimento de um complexo siderúrgico. Em junho de 1941, outro acordo em que os Estados Unidos se comprometiam a fornecer equipamento militar para modernização do Exército. Em troca, o Brasil franqueava aos americanos o uso de portos, aeroportos, estradas de ferro e de rodagem e concedia prioridade na exportação de borracha, café e algodão.

Apesar das restrições à imigração de judeus, alguns embaixadores e cônsules ajudaram a entrar no Brasil um grande número, entre eles Ziembinski, Paulo Ronai, Jean Manzon e Stefan Zweig.

No dia 3 de setembro de 1939, após a invasão da Polônia, o Reino Unido e os países associados, e a França declararam guerra à Alemanha. Em 27 de setembro de 1940, a Alemanha, a Itália e o Japão assinam o pacto de formação do Eixo. Em 22 de junho de 1941, Hitler inicia a invasão da URSS e afrouxa o bombardeio a Londres. Os Estados Unidos que colaboravam com armamento e recursos ao esforço de guerra e se posicionavam como país neutro, foram atacados pelo Japão em 7 de dezembro de 1941 e imediatamente declararam guerra ao inimigo. Em represália, a Alemanha e a Itália, que compunham com o Japão o Eixo, declararam guerra aos Estados Unidos. Com o afundamento dos navios brasileiros Cabedelo, Buarque e Olinda pelos submarinos alemães, e por acordo prévio com os Estados Unidos, o Brasil declarou guerra à Alemanha e à Itália em 22 de agosto de 1942. Alguns dias antes, em 9 de agosto de 1942, nascia a Força Expedicionária Brasileira (FEB) comandada pelo general João Baptista Mascarenhas de Moraes.

Entre 1942 e 1944, 33 navios brasileiros foram afundados pelos submarinos alemães orientados pelos espiões nazistas e pelos quintas-colunas – alemães e italianos nascidos no Brasil, e ex-integralistas – nos portos e na alfândega. O afundamento do navio militar Vital de Oliveira pelo U-861 na costa fluminense, em 19 de julho de 1944, encerrou a guerra submarina ao Brasil, contabilizando mais de mil mortes.

A convocação conseguiu arregimentar 25 mil homens. Em fins de 1943, a Vila Militar, guarnição entre os bairros de Deodoro e Realengo, na Zona Oeste carioca, começou a recebê-los, vindos do Regimento Ipiranga, de Caçapava (SP), e do Regimento Tiradentes, de São João del-Rei (MG). À espera deles, no Rio, estava o 1o. Batalhão de Infantaria Mecanizado, o famoso Regimento Sapaio.

O norte da Itália, onde se instalara o que restara do poderio alemão na bota, foi escolhido depois que os americanos desembarcaram na Sicília e as tropas britânicas, na Calábria, em julho de 1943.

Em agosto de 1943, Mussolini estava preso e a Itália mudara de lado, assim como fizera na Primeira Guerra, e declarara guerra à Alemanha. Em setembro, as tropas alemãs invadem a Itália, resgatam Mussolini da prisão e o instalam como Duce em Saló, uma cidadezinha entre Milão e Veneza. O norte da Itália estava dominado pela Alemanha.

No dia 30 de junho de 1944 começou o embarque do efetivo de 25.700 soldados e oficiais da FEB, transportados em cinco viagens até Nápoles. Eram os primeiros combatentes da América do Sul a partir para um conflito fora do continente. Getúlio Vargas subiu a bordo para despedir-se dos pracinhas na madrugada do dia 02 de julho, horas antes do navio zarpar.

A chegada à baía de Nápoles foi deslumbrante pela visão do Vesúvio despejando uma coluna de fumaça. Mas a entrada na cidade apresentou-os à realidade da guerra, Nápoles era uma grande ruína. Homens, mulheres e crianças vagavam em farrapos, sem destino, estendendo a mão suplicando “Comida! Comida!”.

O quinto e último escalão partiu no dia 05 de fevereiro de 1945 comandado pelo tenente-coronel Ibá Jobim de Meirelles, com 5082 homens, dos quais 247 oficiais. Completava-se assim, em absoluta segurança, o transporte de 25.334 soldados. As enfermeiras haviam seguido em outubro de 1944 por via aérea. Antes delas, chegara o 1o. Grupo de Aviação de Caça da FAB comandada pelo tenente-coronel Nero Moura e sujeita ao 220. Comando Aéreo Tático dos Estados Unidos, que, como a FEB, respondia ao 5o. Exército americano comandado pelo general Mark Clark.

O 5o. Exército, com 153 mil homens, incluindo a FEB, era quase uma legião estrangeira. A FEB talvez fosse a única grande unidade do 5o. Exército racialmente integrada. Para espanto dos americanos, os negros e pardos, 30% do efetivo da FEB, alguns em postos de comando, dividiam mesas, e alojamentos com os brancos.

Para os pracinhas, mais surpreendente era a 92a. Divisão de Infantaria do 5o. Exército, formado por soldados afro-americanos, lutando por democracia na Europa quando no seu país mal eram reconhecidos como seres humanos.

A partir de setembro de 1944, desde que fora considerada pronta para o combate, a FEB tivera uma série de vitórias em quarenta quilômetros de progressão. No dia 16 de setembro verificou-se o primeiro contato com o inimigo (Wikipédia). O 6o. Regimento de infantaria acampado em San Rossore dividiu-se em duas frentes, libertando dos nazistas os vilarejos Massarosa, Camaiore, Barga, Babano, Gillardona, Stazzema e os montes Comunale, Valimono, Acuto e Prano, fizera centenas de prisioneiros e fora aclamada pelas populações locais. Sofreu baixas, 87 feridos e treze mortos.

A temperatura no alto dos Apeninos, no inverno, podia chegar a menos 20 graus centígrados, um tormento a mais para soldados e jornalistas.

De suas tribunas nas esquinas e nos botequins do Rio, a quinta-coluna passava informações falsas sobre estações de esqui e águas termais, namoradas e turismo. Na verdade, para os brasileiros, os Apeninos eram apenas os redutos elevados da sinistra Linha Gótica, de cujas depressões os alemães entrincheirados em casamatas camufladas tinham uma visão panorâmica do território e lhes permitia atirar de cima para baixo em quem subisse.

Os alemães usavam cavalos e burros no terreno acidentado e nas encostas inóspitas para puxar canhões e outras cargas.

Havendo uma cena de violência, era melhor não interferir: eram os partigiani, resistência italiana, linchando um fascista ou linchando um deles próprios, nas eternas brigas entre seus comunistas e democratas cristãos.

Chegou o inverno apenino de 1944, o mais rigoroso do século até então. As fardas verde-oliva eram alvos perfeitos para o inimigo.

Às três da manhã de 6 de junho de 1944, o Rio foi acordado pela Rádio Tupi com a notícia da invasão da Normandia pelos aliados.

Getúlio manobrou para a renúncia de Oswaldo Aranha do Ministério das Relações Exteriores, temendo sua competição nas próximas eleições. Mas isso impediu o Brasil de integrar o futuro Conselho de Segurança da ONU.

Estavam na Itália, a FEB, cujo símbolo era uma cobra fumando, e também a FAB, representada por um avestruz armado, de quepe, rilhando os dentes e dizendo “Senta a pua”. O desenho e a frase foram pintados no nariz das dezenas de caças-bombardeiros que formavam a esquadrilha da FAB, a única não americana, do principal esquadrão americano na Itália, o 350 Fighter Group. De outubro de 1944 até o fim da guerra, a FAB realizou 2546 saídas ofensivas. A FAB destruiu doze aviões, treze locomotivas, oito carros blindados, 25 pontes, 144 edifícios, seis fábricas, cinco usinas elétricas e 31 depósitos de munição.

A FEB já experiente, somente no mês de outubro, tomou dos alemães 27 localidades do vale do rio Serchio e as devolveu aos seus habitantes. Em cada uma, ao desfilarem conduzindo os prisioneiros, os soldados eram abraçados por italianas de todas as idades, pelos italianos, gritando “Brasiliani! Liberatori!” Rubem Braga escreveu “Gostaria que os fascistas e integralistas brasileiros vissem isso.”

Em novembro de 1943, os Lancaster britânicos, durante o dia, e os B-17 americanos, durante a noite, bombardeavam Berlim sem cessar.

Na Itália, à medida que os alemães perdiam suas posições, recuavam para os QGs no alto dos Apeninos para impedir o objetivo final dos Aliados: a conquista de Bolonha, no vale do rio Pó, de onde chegariam ao Passo Brenner, porta de entrada para o sul da Alemanha.

Foram feitos ataques ao Monte Castello nos dias 24, 25 e 29 de novembro e em 12 de dezembro, com resultados desastrosos. Não faltou bravura e destemor, faltou planejamento. Nas duas primeiras investidas, comandados pelos americanos, houve erros táticos; nos dois últimos, comandados pelos brasileiros, flancos e retaguarda ficaram a descoberto. Na investida de 29 de dezembro, um soldado brasileiro chegou quase ao topo do Monte Castello antes de ser abatido. A neve ocultou seu corpo e seu feito por dois meses. Mas, às 5:30 do dia 21 de fevereiro de 1945, em condições climáticas mais favoráveis, com a ajuda da 10a. Divisão de Montanha americana, que manteve ocupados os batalhões alemães no vizinho monte Belvedere, a FEB tomou Monte Castello em doze horas de combate.

Os alemães desalojados de Monte Castello, sob a artilharia da FEB e o “bombardeio de tapete” da FAB, recuaram formando uma nova linha de defesa na montanha, tendo como base a pequena Montese. Foi para a FEB o último ato de resistência alemão e o mais sangrento com quatro dias de batalha quase rua a rua, homem a homem, de 14 a 17 de abril. A FEB venceu ao custo de 34 mortos e quatrocentos feridos. Oitenta por cento das casas do vilarejo foram destruídas e o fogo cruzado matou 189 de seus 2 mil habitantes. Em agradecimento pela liberação, ao reconstruírem a cidade criou-se a Piazza Brasile.

Na primavera, com os alemães em fuga, a perseguição continuou por seus bolsões de resistência, como Zocca, Montalto, Marano, Torre de Nerone, Collecchio e Fornovo. Todos foram tomados.

No dia 28 de abril de 1945, em Collecchio-Fornovo, o inimigo foi bombardeado de frente e pelas laterais pela artilharia brasileira. Numa pausa desse ataque, dom Alessandro Cavalli, pároco da região, foi ao encontro do coronel Nelson de Mello, no acampamento brasileiro dizendo que a tropa alemã, sob ataque, queria render-se.

A rendição trouxe uma surpresa, não se tratava da rendição de um batalhão, mas de uma divisão inteira, a 148a. Divisão Panzer formada por 14.779 soldados e oficiais, 4 mil cavalos, mais de 1500 viaturas entre caminhões, tanques e carroças, 88 canhões e muita munição.

No dia 28 de abril, Benito Mussolini e sua amante, Claretta Petacci foram capturados pelos partigiani na tentativa de fuga para a Suíça. Submetidos a julgamento sumário, foram fuzilados em Giulino de Mezzrega. Seus corpos foram levados para Milão e desovados num posto Esso da Piazzale Loreto, onde populares os penduraram de cabeça para baixo numa viga. Foram baleados, chutados, cuspidos e urinados. “Finito Benito! Finito Benito!” gritava a multidão.

Às 22:30, hora de Belim, no dia 1o. de maio, a rádio oficial alemã anunciou a morte de Adolf Hitler. A confirmação foi aceita após declaração do almirante Karl Dönitz, a quem Hitler passara o poder. O Reich de Mil Anos não passara de doze.

A FEB enfrentou dez divisões alemãs e as derrotou, libertou mais de quarenta localidades, fez 20.537 prisioneiros, entre eles dois generais e 892 oficiais. Teve 1577 feridos e 487 acidentados em combate e enterrou 430 praças e treze oficiais, além de oito oficiais da FAB.

A dissolução da FEB antes do embarque do primeiro escalão na Itália, a dispersão dos oficiais e a dispensa dos praças, no Rio, logo após o regresso mostraram que interesses políticos pesavam mais que os feitos na guerra. Os EUA argumentaram, em vão, a favor do fortalecimento do exército e da aeronáutica com oficiais e praças com experiência de guerra. A desconsideração do governo foi traumática para muitos expedicionários.

Mas, a recepção apoteótica pela população a cada navio que chegava enchia de orgulho os pracinhas e amenizava a falta de preparo governamental para acolhê-los.

Mas nem sempre era uma volta feliz. Casamentos tinham se desfeito durante a ausência deles, noivas se casaram com outro ou morreram, sócios lhes passaram a perna. Os do Rio tinham uma casa para onde retornar, os de fora receberam passagem de segunda em navio ou trem para sua cidade. Outros ficaram no Rio, mas rapidamente gastaram o fundo de previdência que resgataram ao chegar. Alguns se tornaram pedintes.

Não houve uma política de acolhimento que previsse suas dificuldades de adaptação e os orientasse. A FEB produziu cerca de 500 mutilados, muitos nem muletas ganharam ao sair do hospital.

A praxe nos exércitos é que os soldados merecedores de condecorações, por coragem ou heroísmo, as recebam no campo de batalha das mãos do comandante máximo, na presença dos oficiais e de toda a tropa. Mas Dutra, o Ministro da Guerra, nunca mandara as condecorações para a Itália. Os pracinhas as receberam ao voltar ao Brasil em solenidades rápidas. Alguns brasileiros também receberam medalhas no campo de batalha, mas pelo exército americano.

A proibição aos pracinhas e oficiais de falar com a imprensa sobre suas experiências, quando era grande o interesse pela sua história, encurtou a euforia pela conquista e impediu que as façanhas expedicionárias assentassem na alma brasileira.

Getúlio e Dutra não temiam a volta dos pracinhas. Temiam a dos comandantes. Para eles, Mascarenhas, Zenóbio, Falconière e Cordeiro ao descer no Rio com uma tropa bem treinada poderiam provocar, se quisessem, uma conflagração institucional e derrubar a ditadura Vargas.

“Depois de tantas vitórias na frente de batalha, a FEB foi abatida com um só tiro, e pelas costas”.


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