quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

O ENSINO FUNDAMENTAL E MÉDIO TEM SOLUÇÃO


O ENSINO FUNDAMENTAL E MÉDIO TEM SOLUÇÃO
Erly Cardoso Teixeira
Professor Titular da Universidade Federal de Viçosa, e-mail:  teixeira@ufv.br

            Todo o gasto público com o ensino fundamental e médio no Brasil só faz os alunos aprender, no máximo, 10% do que lhes é ensinado.  Noventa por cento (90%) dos recursos aplicados e do tempo dos professores e alunos dedicado ao aprendizado são perdidos. Isto acontece porque, na quase totalidade das escolas, tudo o que os alunos aprendem lhes é ensinado no quadro negro: eles não têm aulas práticas e não há equipamentos ou laboratórios.  Eles aprendem apenas ouvindo o professor.  Os alunos da educação básica não veem, não manipulam, não trabalham os conceitos, portanto, retêm muito pouco do que lhes é ensinado. 
Isto é o que se depreende quando se lê as publicações da literatura sobre a “Pirâmide de Retenção do Aprendizado”.  Os artigos publicados, tratando do tema aprendizado nas escolas, informam que: alunos submetidos a aulas apenas expositivas aprendem, quando muito, 10% do conteúdo oferecido e o que aprendem, eles retêm por muito pouco tempo. Já os alunos, que tiveram aulas práticas ou a oportunidade de ver o conceito acontecendo, acumulam 30% de conhecimento e retêm esse conhecimento por muito mais tempo. Mas, se ao aluno for oferecida a oportunidade de discutir e trabalhar com o conceito, isto é, de realizar experimentos, ele aprende 75% do conteúdo, e o recorda pelo resto da vida. E o melhor, pode aplicá-lo em exames de acesso ao ensino superior, em atividades profissionais e em inovações.
Nos últimos dez anos, na minha classe de 40 alunos de graduação, nos dez minutos finais de uma das aulas do semestre, faço sempre as mesmas duas perguntas.  A primeira: quem teve, no segundo grau, aulas práticas semanais no conjunto das disciplinas - física, química, matemática, biologia e geografia?  A melhor resposta que tive foi somente de um aluno entre os 40. A segunda pergunta é: quem teve, no segundo grau, aulas práticas semanais em, pelo menos, uma das disciplinas - física, química, matemática, biologia e geografia?  Apenas uma vez, em dez anos, cinco alunos levantaram a mão. Nos outros anos, eu ficava feliz quando dois alunos diziam ter tido demonstrações práticas em uma ou outra disciplina. 
É decepcionante e lamentável confirmar, a cada ano, que os problemas no ensino médio, que eu vivenciei na década de 1960, continuam os mesmos quase cinquenta anos depois. Essa constatação explica também os medíocres resultados obtidos por nossos alunos nos testes do Program for International Student Assessment (PISA), da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Entre 65 países (sistemas de ensino), os estudantes brasileiros são classificados entre os últimos quinquagésimos, melhor apenas que os alunos de uns poucos países reconhecidamente com péssimo sistema educacional. Na classificação publicada pelo the Economist Intelligence Unit, entre 40 países, o Brasil ficou em 38o lugar.  Esses resultados explicam também o alto grau de evasão ou a demora na conclusão dos cursos. Aprender apenas via aulas expositivas é cansativo, dispersivo e frustrante.
A solução proposta está em oferecer aos alunos a oportunidade de ver e trabalhar os conceitos em aulas práticas. Isto requer escolas em tempo integral; adaptação do currículo escolar; treinamento de professores; adaptação e, até mesmo, construção de salas de aula e\ou laboratórios para aulas práticas; construção de novas escolas e remuneração de professores condizente com o maior tempo dedicado ao ensino.
O ensino médio tem outro defeito grave: o de preparar os alunos exclusivamente para fazer as provas do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) ou dos vestibulares de acesso aos cursos superiores.  O aluno que não consegue acesso a um curso superior vê-se constrangido a enfrentar o mercado de trabalho com o pouco que aprendeu em aulas expositivas. Mas o mercado de trabalho está interessado em profissionais com treinamento em informática, em instalação elétrica, em instalação hidráulica, em construção civil, em técnicas siderúrgicas, metalúrgicas e agrícolas, entre outras. 
Tem-se, portanto, um conflito. Os egressos do ensino médio não estão preparados para atender as demandas do mercado de trabalho.  Por sua vez, o mercado de trabalho demanda muito pouco do conhecimento teórico e de baixa aplicabilidade adquirido pelos estudantes que concluíram o ensino médio.
A solução para esse problema está em fazer com que todas as escolas de segundo grau ofereçam o ensino médio científico simultaneamente com o ensino profissionalizante. O que essa mudança requer?  Primeiro, escolas de ensino médio em tempo integral com adequação dos programas analíticos; segundo, treinamento de professores; terceiro, as comunidades próximas às escolas de ensino médio escolherem uma ou mais profissões para serem ensinadas; quarto, construção de laboratórios, salas de aulas práticas e oficinas para treinamento dos futuros profissionais; quinto, aquisição de equipamentos; e sexto, contratação de professores com a qualificação adequada. 
Aplicadas as duas soluções apontadas acima: a) aulas práticas e b) segundo grau científico e profissionalizante, melhores estudantes do ensino fundamental chegarão ao ensino médio, e melhores estudantes do ensino médio irão cursar o terceiro grau.   Aqueles estudantes do ensino médio que não conseguirem acesso a um curso superior ou que não queiram continuar estudando terão, contudo, maiores oportunidades no mercado de trabalho.

A aplicação das duas soluções sugeridas requer investimento, coordenação e decisão administrativa e política.   Mas isto deve servir como estímulo e não de desculpa para protelar a aplicação de medidas que realmente melhorem a educação no Brasil. A sociedade brasileira vê, inconformada, o Ministério da Educação e as Secretarias Estaduais de Educação receberem os resultados humilhantes do péssimo desempenho da educação no Brasil, e não se posicionarem lançando e executando um programa inovador que resolva os problemas dos ensinos fundamental e médio.  Ou se faz isso agora, ou iremos, no futuro, lamentar décadas perdidas por omissão e falta de iniciativa para resolver um problema cuja solução é conhecida.

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