domingo, 1 de março de 2020

Torto Arado – Itamar Vieira Junior

Na primeira linha das anotações, aparecem, nessa ordem, o número do livro lido, a data em que terminei a leitura, o título do livro e o nome do auto


830 (27-02-2020) – Torto Arado – Itamar Vieira Junior

Esse livro ganhou o prêmio Leya 2018 concedido ao melhor romance publicado pela Editora Leya, de Portugal, nesse ano.  É um livro reflexivo, bom de ler e escrito com grande qualidade literária.
A história se passa no Nordeste brasileiro, na Fazenda Água Negra. Na casa de barro do colono negro Zeca Chapéu Grande e Salustiana viviam as filhas Bibiana, de sete anos e Belonísia, um ano mais nova, e Donana, a avó das meninas.  As garotas, muito curiosas, esperaram a avó se afastar para retirar a mala de couro encarquilhada debaixo de sua tarimba. Reviraram panos velhos, chapéus de palha, e encontraram, no fundo, um punhal enrolado num pano.  A lâmina brilhava polida na desordem dos guardados. Bibiana viu sua imagem refletida na faca, insatisfeita colocou-a na boca para sentir seu gosto. Belonísia ansiosa e apressada puxou o metal, e prendeu-o entre os dentes sentindo o gosto de sangue da língua cortada da irmã. Bibiana não falou mais,  comunicava emitindo algum som e gestos traduzidos por Belonízia. 
As meninas viram moças, Belonísia se engravida de seu primo Severo e foge de casa e das humilhações a que sua família era submetida pelo capataz dos proprietários ausentes, retirando-lhes mais alimentos do que o tradicionalmente acertado e aceito.  Severo é assassinado por se rebelar contra a exploração a que os empregados eram submetidos. O autor reflete sobre as relações familiares. Ora uma filha era expulsa de casa por seu relacionamento amoroso, ora aceita, inicialmente a contragosto, mas com carinho, após a chegada do neto. A seca sempre presente na natureza se reflete nas vidas secas dos casais, o que faz Bibiana não chorar no enterro do companheiro com quem vivia há quase um ano; na dureza com que espeta com o punhal que decepara sua língua o pescoço do marido bêbado que batia na mulher, sua amiga.  E como recebe agradecida, como terra ressequida, o carinho da amiga que lhe alisava os cabelos enquanto esperavam pela volta do marido que chegou manso, pesaroso dos maus tratos impostos à esposa. O sincretismo religioso é vivido nas festas de jarê, nos orixás e é uma força extraordinária e ancestral para esses descendentes de escravos.

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