quinta-feira, 9 de junho de 2022

Boa Ventura! A corrida do ouro no Brasil, 1697-1810 – Lucas Figueiredo

 Na primeira linha das anotações, aparecem, nessa ordem, o número do livro lido, a data em que terminei a leitura, o título do livro e o nome do autor. 

855 (06-05-2022) – Boa Ventura! A corrida do ouro no Brasil, 1697-1810 – Lucas Figueiredo

            Enquanto os espanhóis raspavam o ouro dos monumentos astecas e incas e achavam a montanha de prata de Potosi em 1545, os portugueses e brasileiros entravam Brasil adentro escravizando índios e buscando ouro. As expedições partindo de Pernambuco, da Bahia, do Espírito Santo, do Rio de Janeiro e principalmente de São Paulo alargaram as fronteiras do Brasil e encontraram montanhas de ouro nos córregos e terrenos de aluvião, inicialmente na capitania de Minas Gerais na década de 1690, depois em Mato Grosso, Rondônia e Goiás.

            Lucas Figueiredo faz um trabalho minucioso, detalhado e extensamente documentado da corrida do ouro, segurando o leitor atento e curioso às narrativas empolgantes da descoberta da prata em Potosi; de pouco ouro em São Paulo, em 1562; de muito ouro em Minas Gerais, em 1693; da Guerra dos Emboabas (1706-1709) em que os mineradores de Minas Gerais expulsaram os paulistas; da criação da capitania de Minas Gerais, em 1720; das monções, grandes expedições levando, às vezes, mais de mil pessoas em viagens de três a sete meses em direção às minas da região de Cuiabá; os enfrentamentos com os índios Guaicurus e Paiaguás; as guerras travadas entre os reinos africanos de Daomé, Iguira, Wassa, Akien e Adansi, em que os prisioneiros derrotados eram vendidos como escravos na fortaleza de São João Batista aos traficantes portugueses e brasileiros; o transporte dos escravos nos “tumbeiros”, ou navios negreiros, carregados no porto de Ouidá.

            Lucas Figueiredo revela os horrores do Terremoto de Lisboa, 9 graus na escala Richter, um dos mais mortíferos da história. Era o dia de Todos os Santos, 1o. de novembro de 1755, as igrejas estavam cheias às 9:40 horas da manhã quando o abalo aconteceu. Os que sobreviveram ao solavanco correram para o porto e áreas descobertas, viram as águas do Rio Tejo secarem e depois o tsunami, ondas de vinte metros de altura avançar rio adentro, inundar 250 metros de Lisboa arrastando barcos, casas, destroços, carruagens, vivos e mortos. Na vazante carregaram tudo de volta. Nos sete minutos que durou o fenômeno 15.000 pessoas morreram. Os incêndios provocados, em grande parte pelas velas acesas nas igrejas e casas, lançavam labaredas avistadas a quilômetros pelo rei d. José que estava com a família em Belém. Lisboa ardeu durante seis dias. Completando a desgraça não faltaram os saqueadores, assaltantes, estupradores e assassinos. “Quem escapou à ira da natureza e à sanha dos homens teve de lutar depois contra a fome e a peste. E contra o medo”.

            A derrama era a cobrança da parte do quinto, que a partir de 1750 fora estabelecido em 100 arrobas (1474 quilos) de ouro, que não fora paga pela capitania em razão da queda na produção.  O visconde de Barbacena, Luís Antônio Furtado de Mendonça, assumiu o governo de Minas Gerais em julho de 1788 com “ordens de cobrar os quintos atrasados que somavam a exorbitância de 8,8 toneladas. Vinha aí mais uma derrama, possivelmente a pior de todas”. A reação a essa derrama até culminar na Inconfidência Mineira, em 1789, no desterro para a África dos conjurados que sobreviveram aos assassinatos e à três anos de prisão, e ao enforcamento de Tiradentes, em 1792, é brilhantemente descrita. “O martírio de Tiradentes certamente ensinou algo aos mineiros, mas também à Coroa.  Temendo novas revoltas, a derrama foi cancelada”.

            As relações de Portugal, comprador inconsequente, com a Inglaterra, vendedora agressiva, transferiram para esse país, apenas em 1738, 60% do ouro produzido no Brasil, 8 toneladas. Por outro lado, garantiu segurança à fuga da família real, chefiada por d. João VI, para o Brasil em 1808.

            O livro é muito bem escrito e repleto de curiosidades que conquistam o leitor desde as primeiras páginas.  855 (06-05-2022) – Boa Ventura! A corrida do ouro no Brasil, 1697-1810 – Lucas Figueiredo

 

            Enquanto os espanhóis raspavam o ouro dos monumentos astecas e incas e achavam a montanha de prata de Potosi em 1545, os portugueses e brasileiros entravam Brasil adentro escravizando índios e buscando ouro. As expedições partindo de Pernambuco, da Bahia, do Espírito Santo, do Rio de Janeiro e principalmente de São Paulo alargaram as fronteiras do Brasil e encontraram montanhas de ouro nos córregos e terrenos de aluvião, inicialmente na capitania de Minas Gerais na década de 1690, depois em Mato Grosso, Rondônia e Goiás.

            Lucas Figueiredo faz um trabalho minucioso, detalhado e extensamente documentado da corrida do ouro, segurando o leitor atento e curioso às narrativas empolgantes da descoberta da prata em Potosi; de pouco ouro em São Paulo, em 1562; de muito ouro em Minas Gerais, em 1693; da Guerra dos Emboabas (1706-1709) em que os mineradores de Minas Gerais expulsaram os paulistas; da criação da capitania de Minas Gerais, em 1720; das monções, grandes expedições levando, às vezes, mais de mil pessoas em viagens de três a sete meses em direção às minas da região de Cuiabá; os enfrentamentos com os índios Guaicurus e Paiaguás; as guerras travadas entre os reinos africanos de Daomé, Iguira, Wassa, Akien e Adansi, em que os prisioneiros derrotados eram vendidos como escravos na fortaleza de São João Batista aos traficantes portugueses e brasileiros; o transporte dos escravos nos “tumbeiros”, ou navios negreiros, carregados no porto de Ouidá.

            Lucas Figueiredo revela os horrores do Terremoto de Lisboa, 9 graus na escala Richter, um dos mais mortíferos da história. Era o dia de Todos os Santos, 1o. de novembro de 1755, as igrejas estavam cheias às 9:40 horas da manhã quando o abalo aconteceu. Os que sobreviveram ao solavanco correram para o porto e áreas descobertas, viram as águas do Rio Tejo secarem e depois o tsunami, ondas de vinte metros de altura avançar rio adentro, inundar 250 metros de Lisboa arrastando barcos, casas, destroços, carruagens, vivos e mortos. Na vazante carregaram tudo de volta. Nos sete minutos que durou o fenômeno 15.000 pessoas morreram. Os incêndios provocados, em grande parte pelas velas acesas nas igrejas e casas, lançavam labaredas avistadas a quilômetros pelo rei d. José que estava com a família em Belém. Lisboa ardeu durante seis dias. Completando a desgraça não faltaram os saqueadores, assaltantes, estupradores e assassinos. “Quem escapou à ira da natureza e à sanha dos homens teve de lutar depois contra a fome e a peste. E contra o medo”.

            A derrama era a cobrança da parte do quinto, que a partir de 1750 fora estabelecido em 100 arrobas (1474 quilos) de ouro, que não fora paga pela capitania em razão da queda na produção.  O visconde de Barbacena, Luís Antônio Furtado de Mendonça, assumiu o governo de Minas Gerais em julho de 1788 com “ordens de cobrar os quintos atrasados que somavam a exorbitância de 8,8 toneladas. Vinha aí mais uma derrama, possivelmente a pior de todas”. A reação a essa derrama até culminar na Inconfidência Mineira, em 1789, no desterro para a África dos conjurados que sobreviveram aos assassinatos e à três anos de prisão, e ao enforcamento de Tiradentes, em 1792, é brilhantemente descrita. “O martírio de Tiradentes certamente ensinou algo aos mineiros, mas também à Coroa.  Temendo novas revoltas, a derrama foi cancelada”.

            As relações de Portugal, comprador inconsequente, com a Inglaterra, vendedora agressiva, transferiram para esse país, apenas em 1738, 60% do ouro produzido no Brasil, 8 toneladas. Por outro lado, garantiu segurança à fuga da família real, chefiada por d. João VI, para o Brasil em 1808.

            O livro é muito bem escrito e repleto de curiosidades que conquistam o leitor desde as primeiras páginas.  

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