Na primeira linha das anotações, aparecem, nessa ordem, o número do livro lido, a data em que terminei a leitura, o título do livro e o nome do autor.
880 (06-08-2024) – Homens imprudentemente poéticos. Valter Hugo Mãe, Biblioteca Azul, São Paulo, 2016. 192 p.
Lautentino Gomes prefaciando esse
romance diz: “Escrever sobre Valter Hugo Mãe, e ler seus livros, é adentrar
território sagrado. Da imaginação e da língua portuguesa. ... Sua obra é
repleta de poesia e desassombro linguístico.”
Algo há de conhecido no estilo e na
escrita desse autor, mas como não consigo identificá-lo, chamo sua literatura
de original. O romance é poético, mas escrito em prosa; é filosófico, mas as
imagens e as reflexões são claras e únicas.
Nos primeiros parágrafos tem-se uma
ideia do que se vai encontrar livro adentro: “Quando Itaro caçou o besouro e o
golpeou, até que o seu corpo mínimo restasse apenas mancha na madeira do chão,
era mais do que o besouro que queria matar. Itaro queria matar uma ideia.
Demorava, depois, a observar a cor
ténue do bicho desfeito, ponderando artes de adivinhação para cuidar de um
futuro qualquer.”
Neste outro trecho, há uma imagem
literária muito bonita: “Num abraço, pensava, as pessoas deixavam de se poder
ver. Como se, num abraço, fosse indiferente quem estava mas importasse apenas a
convicção com que era dado.”
Itaro e Saburo são vizinhos e inimigos.
Itaro é um artesão que faz leques e neles pinta lindas paisagens, Saburo é um
oleiro que se dedica a um jardim em que o quimono de sua amada esposa morta é
um espantalho. Matsu é irmã de Itaro, mas por cega, é descartável e levada para
a floresta dos suicidas para lá se perder. Não se perde, encontra um admirador
com quem se casa e vai morar no lago Biwa, o mar prisioneiro do Japão. Itaro e
Saburo não se matam, se desenvolvem amigos e conversam longamente ao lado do
forno do oleiro.

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