segunda-feira, 27 de outubro de 2025

RoBerTo contra o mundo – Durval Prata

 Na primeira linha das anotações, aparecem, nessa ordem, o número do livro lido, a data em que terminei a leitura, o título do livro e o nome do autor.                               



901 (23-10-2025) –
RoBerTo contra o mundo – Durval Prata. Editora Ágora da Ilha, Rio de Janeiro, 2001. 84 p.

            O diário de guerra do expedicionário Durval Prata conta concisamente como os soldados brasileiros libertaram a Itália do exército alemão. Ele inicia o diário embarcado no grande navio americano General Mann com mais de cinco mil combatentes, viajando sem destino definido. O navio zarpou no dia dois de julho de 1944. O receio dos submarinos alemães e as ondas do mar causavam enjoos incontroláveis em grande parte da tropa. Só após atravessarem o Estreito de Gibraltar, souberam que iriam desembarcar em Nápoles. Na chegada, no dia 16 de julho, a bela vista do Vesúvio, vulcão ativo lançando uma rala nuvem de fumaça branca, escondia uma cidade em ruínas e um povo maltrapilho, esfarrapado e esfaimado, pedindo comida.

            Viajando de metrô e a pé, passaram por acampamentos de tropas americanas, inglesas, canadenses, australianas e indianas até chegarem à base do vulcão Astrônia, extinto, local do acampamento brasileiro. Ver a bandeira brasileira tremulando alto trouxe grande orgulho à tropa, como se tivesse vencido uma batalha.

            Nos dias seguintes, o toque de alvorada era seguido do troar dos canhões da artilharia em exercício.  “Durante a noite assistimos a um exercício de fogo antiaéreo que posso chamar de infernal: às 2 horas da madrugada todas as lâmpadas se apagaram, deixando a cidade às escuras. Uma densa neblina artificial foi lançada ao ar, escurecendo a própria lua cheia. Nesse momento, as artilharias de terra e mar abriram fogo, e balas tracejantes de todas as cores cortavam o céu em um espetáculo verdadeiramente deslumbrante. Alguns navios vomitavam tal volume de fogo que pareciam eles próprios estarem em chamas”.

            “Estamos acampados em Vada, subúrbio de Livorno, região próxima de Pisa onde os alemães ainda resistem. Alvorada às 5 horas. Seguimos em viaturas para Riparbela. Lá, a bateria de canhões tomou posição e levamos os cabos telefônicos até o observatório, distante 11 quilômetros, a pé. Minha estréia nos campos italianos foi pesada. Voltamos às 22 horas, cansados, sujos e sem jantar. Isso é a guerra!”

            A artilharia troava seus canhões desorganizando a defesa alemã. No ar a FAB atirava bombas e varria com fogo de napalm as posições tedescas. Uma pequena pausa no canhonaço era seguida pelo avanço da infantaria aos berros abafados pelas rajadas de metralhadoras. Os gritos dos feridos eram ignorados no avanço desenfreado caçando e derrubando os alemães até a limpeza das posições. Os padioleiros apareciam socorrendo os feridos e depois recolhendo os mortos para o sepultamento.

“Saí às 17horas para dar apoio a um batalhão de infantaria. Durante toda a noite estendi uma linha telefônica entre a nossa artilharia e o posto de comando da infantaria. Foi um trabalho árduo, e quando terminamos o sol já estava raiando e o café da manhã sendo servido”.

“Passamos o domingo atirando muito, dando apoio à infantaria. Durante a noite toda, de hora em hora, ouvia-se o rugir dos nossos canhões. No dia 20 de fevereiro, atiramos muito com os canhões apontados para Monte Castelo, e, após o intenso bombardeio, a nossa infantaria finalmente ocupou o grande obstáculo para Bolonha”.

            Durval Prata conta dos avanços dos batalhões da FEB liberando mais de quarenta localidades e devolvendo-as aos italianos, dos desfiles com os prisioneiros teutos e das manifestações de agradecimento das populações: palmas, abraços, beijos, lágrimas de gratidão.

Conta do tratamento dos oficiais aos soldados. “Ao chegar ao acampamento soube de outro feito digno de um vândalo: em um desentendimento entre um soldado e dois tenentes, o primeiro-tenente Siomir Porto sacou a pistola enquanto o tenente Donald agredia o soldado. Este queixou-se ao coronel-comandante, que lhe perguntou se queria apanhar mais. Infelizmente, assim foi. Quando eu ainda estava no Brasil, veio à público a notícia de que o general Patton havia sido rebaixado por esbofetear um soldado. Hoje, dia 4 de setembro de 1944, um coronel brasileiro esbofeteou um cabo e ficou impune”.  

A recepção a cada um dos cinco escalões de pracinhas retornando ao Brasil foi apoteótica nos desfiles na Avenida Rio Branco. Música nos alto-falantes pendurados nos postes e árvores, bandeiras agitadas e flores, a alegria e a euforia da população que se comprimia para cumprimentar, bater continência, abraçar, beijar, arrancar o distintivo da cobra fumando das fardas e, mais tarde, festas.

 “Na Avenida Rodrigues Alves, passamos por uma fila de funcionários da LBA, para recebermos doces, sanduíches, Coca-cola, refrescos, cigarros etc...”

“Na Itália vimos seres humanos comerem restos de alimentos deixados por nós, e aqui também. Vimos crianças maltrapilhas pedindo os nossos sanduíches e até restos apanharam. Enfim, tinha que acontecer algo para estragar a apoteose da chegada, coisas da vida, caprichos do destino...”

“Às 16 horas entramos desfilando na Avenida Rio Branco. Posso dizer que o que se passou foi algo indescritível. Percorremos a Avenida Rio Branco até o antigo quartel do Regimento de Artilharia Antiaérea de Deodoro. Eram palmas, flores, vivas, risos e outras demonstrações de alegria e gratidão. Por volta das 19 horas chegamos em Deodoro, e, depois da entrega do material e do armamento, fomos dispensados. Ao sair, tive o prazer de encontrar com um grupo de amigos, que me levaram de carro para minha residência”.

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