Na primeira linha das anotações, aparecem, nessa ordem, o número do livro lido, a data em que terminei a leitura, o título do livro e o nome do autor.
901 (23-10-2025) –RoBerTo contra o mundo – Durval Prata. Editora Ágora da Ilha, Rio de Janeiro, 2001. 84 p.
O diário de guerra do expedicionário
Durval Prata conta concisamente como os soldados brasileiros libertaram a
Itália do exército alemão. Ele inicia o diário embarcado no grande navio
americano General Mann com mais de cinco mil combatentes, viajando sem destino
definido. O navio zarpou no dia dois de julho de 1944. O receio dos submarinos
alemães e as ondas do mar causavam enjoos incontroláveis em grande parte da tropa.
Só após atravessarem o Estreito de Gibraltar, souberam que iriam desembarcar em
Nápoles. Na chegada, no dia 16 de julho, a bela vista do Vesúvio, vulcão ativo
lançando uma rala nuvem de fumaça branca, escondia uma cidade em ruínas e um
povo maltrapilho, esfarrapado e esfaimado, pedindo comida.
Viajando de metrô e a pé, passaram
por acampamentos de tropas americanas, inglesas, canadenses, australianas e indianas
até chegarem à base do vulcão Astrônia, extinto, local do acampamento
brasileiro. Ver a bandeira brasileira tremulando alto trouxe grande orgulho à
tropa, como se tivesse vencido uma batalha.
Nos dias seguintes, o toque de
alvorada era seguido do troar dos canhões da artilharia em exercício. “Durante a noite assistimos a um exercício de
fogo antiaéreo que posso chamar de infernal: às 2 horas da madrugada todas as
lâmpadas se apagaram, deixando a cidade às escuras. Uma densa neblina
artificial foi lançada ao ar, escurecendo a própria lua cheia. Nesse momento,
as artilharias de terra e mar abriram fogo, e balas tracejantes de todas as
cores cortavam o céu em um espetáculo verdadeiramente deslumbrante. Alguns
navios vomitavam tal volume de fogo que pareciam eles próprios estarem em
chamas”.
“Estamos acampados em Vada, subúrbio
de Livorno, região próxima de Pisa onde os alemães ainda resistem. Alvorada às
5 horas. Seguimos em viaturas para Riparbela. Lá, a bateria de canhões tomou
posição e levamos os cabos telefônicos até o observatório, distante 11
quilômetros, a pé. Minha estréia nos campos italianos foi pesada. Voltamos às
22 horas, cansados, sujos e sem jantar. Isso é a guerra!”
A artilharia troava seus canhões
desorganizando a defesa alemã. No ar a FAB atirava bombas e varria com fogo de napalm
as posições tedescas. Uma pequena pausa no canhonaço era seguida pelo avanço da
infantaria aos berros abafados pelas rajadas de metralhadoras. Os gritos dos
feridos eram ignorados no avanço desenfreado caçando e derrubando os alemães
até a limpeza das posições. Os padioleiros apareciam socorrendo os feridos e
depois recolhendo os mortos para o sepultamento.
“Saí
às 17horas para dar apoio a um batalhão de infantaria. Durante toda a noite
estendi uma linha telefônica entre a nossa artilharia e o posto de comando da
infantaria. Foi um trabalho árduo, e quando terminamos o sol já estava raiando
e o café da manhã sendo servido”.
“Passamos
o domingo atirando muito, dando apoio à infantaria. Durante a noite toda, de
hora em hora, ouvia-se o rugir dos nossos canhões. No dia 20 de fevereiro,
atiramos muito com os canhões apontados para Monte Castelo, e, após o intenso
bombardeio, a nossa infantaria finalmente ocupou o grande obstáculo para
Bolonha”.
Durval Prata conta dos avanços dos
batalhões da FEB liberando mais de quarenta localidades e devolvendo-as aos
italianos, dos desfiles com os prisioneiros teutos e das manifestações de
agradecimento das populações: palmas, abraços, beijos, lágrimas de gratidão.
Conta
do tratamento dos oficiais aos soldados. “Ao chegar ao acampamento soube de
outro feito digno de um vândalo: em um desentendimento entre um soldado e dois
tenentes, o primeiro-tenente Siomir Porto sacou a pistola enquanto o tenente
Donald agredia o soldado. Este queixou-se ao coronel-comandante, que lhe
perguntou se queria apanhar mais. Infelizmente, assim foi. Quando eu ainda
estava no Brasil, veio à público a notícia de que o general Patton havia sido
rebaixado por esbofetear um soldado. Hoje, dia 4 de setembro de 1944, um
coronel brasileiro esbofeteou um cabo e ficou impune”.
A recepção
a cada um dos cinco escalões de pracinhas retornando ao Brasil foi apoteótica nos
desfiles na Avenida Rio Branco. Música nos alto-falantes pendurados nos postes
e árvores, bandeiras agitadas e flores, a alegria e a euforia da população que
se comprimia para cumprimentar, bater continência, abraçar, beijar, arrancar o distintivo
da cobra fumando das fardas e, mais tarde, festas.
“Na Avenida Rodrigues Alves, passamos por uma
fila de funcionários da LBA, para recebermos doces, sanduíches, Coca-cola,
refrescos, cigarros etc...”
“Na
Itália vimos seres humanos comerem restos de alimentos deixados por nós, e aqui
também. Vimos crianças maltrapilhas pedindo os nossos sanduíches e até restos
apanharam. Enfim, tinha que acontecer algo para estragar a apoteose da chegada,
coisas da vida, caprichos do destino...”
“Às
16 horas entramos desfilando na Avenida Rio Branco. Posso dizer que o que se
passou foi algo indescritível. Percorremos a Avenida Rio Branco até o antigo
quartel do Regimento de Artilharia Antiaérea de Deodoro. Eram palmas, flores,
vivas, risos e outras demonstrações de alegria e gratidão. Por volta das 19
horas chegamos em Deodoro, e, depois da entrega do material e do armamento,
fomos dispensados. Ao sair, tive o prazer de encontrar com um grupo de amigos,
que me levaram de carro para minha residência”.
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