Na primeira linha das anotações, aparecem, nessa ordem, o número do livro lido, a data em que terminei a leitura, o título do livro e o nome do autor.
898 (16-09-2025) – O mundo começa em Cajuri – José Amélio Molica. Tinta Negra Edições, Rio de Janeiro, 2025. 177 p.
Esta resenha foi escrita por Stella Maris Resende como “Apresentação” do livro.
Apresentação
Stella
Maris Resende
Vagões de trem são estas histórias
que nos levam ao interior de Minas Gerais nas décadas de 1930 e 1940, quando
havia um único automóvel em Cajuri e eram costumeiras as longas viagens na Estrada
de Ferro da Leopoldina em direção ao Rio de Janeiro. A mãe não estava de salto
alto. Por isso, não poderia viajar de primeira classe? A gente se emociona com
a prosa deliciosa, memorialística, muitas vezes poética, adorável em seu bom
humor. José Amélio Molica é um narrador atento, minucioso, e as pessoas têm
nomes que a gente gosta de ouvir e dizer: Marrequinha, fubá, Mundico, Zé
Bodoque, Fifi, Memé, avó Sinvá, Zé Ferré, Ambrosa, Tavina, Sá Doce, vovó Sassé.
Estamos na Fazenda Santa Inês. Bem
cedinho acompanhamos o Zequinha, que sai com o pai para tocar os bois, vacas e
bezerros. Depois vamos catar o arroz, nada de deixar “marinheiros”. A gente almoça
frango com quiabo, feijão, arroz, couve rasgada e angu. De merenda, broas,
bolos de fubá, biscoitos e brevidades que estavam no guarda-comida. Curamos
feridas com limão galego. Com a professora Badia1 e Alice,
aprendemos que restaurante não serve restos de comida, e sim restaura a força
das pessoas. Ao passearmos pelas casas de famílias mais simples, pisamos em
terra batida, mas tudo é um brinco de tão bem arrumadinho. Que maravilha ouvir
a Aparecida, que é gaga, mas vira cantora maviosa nas cantigas de roda!
Tem água encanada em canos de bambu.
Tem um desditoso banho nas bonecas de papelão. Tem os meninos e suas improvisadas
chuteiras de futebol. Tem as viagens em carro de bois e as estradas ou com muita
poeira, ou com barro demais da conta, ô flagelo. Um dos bois se chama Rogério e
a nossa roupa é de pano de riscado. No cabelo, gordura de porco retirada da panela
de pedra. Tem as missas em latim. Aproxima-se o fim da Segunda Guerra Mundial e
os jornais do Rio são raridades que duram meses e meses.
...
“Mais nada para contar?” Tem sim, “o
Divino Vitarelli casado com a irmã Inês. Suas histórias – e algumas mentiras – são
inesquecíveis, como exatamente as dos Mollica”2. O Zequinha,
agora o autor José Molica, convida a gente para “tomar café, almoçar e jantar
sentada no banco da cozinha, além de beber água em caneca de latinha de
azeitona”.
Bem devagarinho, “o mundo começa em Cajuri”, e quem tem sorte, “Benza-o Deus”, de ler esse livro, vai se enleando em histórias memoráveis e encantadoras.
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___________________
[1]
Acrescentei Badia porque é uma das professoras mencionadas no livro.
[2]
Acrescentei o texto entre aspas e em itálico extraído da última página do
livro.

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