Na primeira linha das anotações, aparecem, nessa ordem, o número do livro lido, a data em que terminei a leitura, o título do livro e o nome do autor.
795 (11-03-2017) – A
Dureza do Espelho – Omar de Moura Luz
Essa novela, encontrei-a debaixo
da porta em folhas soltas, sem numeração e sem o nome do autor. Bastou-me ler algumas linhas para identificar
o estilo claro, límpido, engraçado e inconfundível de Júlio Paixão. Liguei para ele, mas estava viajando e deixei
o recado de que iria ler a novela ou o conto.
Eu
estava terrivelmente enganado, o texto é do grande escritor, meu vizinho e
amigo, Omar de Moura Luz. Encontramo-nos hoje e ele perguntou-me se havia encontrado
o conto sob a porta. Desfeita a confusão, mantenho a resenha que fiz.
O texto de quarenta páginas em espaço simples
é longo para conto, mas é curto para um romance; classifico-o como novela. Iniciei a leitura sorrindo: um sujeito
“enfiado no ridículo conjuntinho safári... e que não se divorcia dos fingidos
jeitos e trejeitos” chega a uma sala grande, onde o narrador em posição
privilegiada identifica os visitantes.
“...veja como se pavoneia, ...
apesar dos rapapés, não tira os olhos das curvas de Aurora”. Continua o
narrador enciumado, também tarado na Aurora, tanto que escalou o muro da casa
dela para vencer o portão trancado e visitá-la. Outros conhecidos vão chegando
e o narrador, revela-lhes a vida usando técnicas literárias invejáveis pela
clareza, graça e fluência do texto. Mas
se isso não bastasse, as reflexões do autor sobre a morte, a vida pós morte, a
busca por mais um pouco de vida na terra, existência da alma, Deus e os poderes
de Deus, a doutrina espírita, na forma como são apresentadas, engrandecem o
livro. As estórias são várias e diversas, a maioria
refere-se a mulheres. Por exemplo: “Houve outra que era do mesmo feitio dessa
daí. Era uma mulher marmórea”. Que
permite ao autor o seguinte diálogo: - “Você
diz que gosta, mas não demonstra, não emite um único murmúrio. Essa frieza, essa falta de prazer, é só
comigo?” - “Não, com todos os que tive.” - “E quantos foram?, perguntei” – “Não sei, perdi a conta”. Após
inúmeras estórias chega-se ao final. O
narrador estava no seu próprio velório conversando com um amigo.
-“E você Adamastor, o que faz aqui?
... Agora me lembro, você é mais novo, mas já morreu!”
-
Morri, e demorei a acreditar na minha morte.
-Você
está brincando...
-
Está na hora, professor, seu tempo já passou. Recebi a incumbência de guiá-lo.
-
Eu morri?
-
Morreu, morreu no mesmo dia em que tentou escalar o muro da casa de Aurora.
-
Mas...
Terminei a leitura sorrindo, a novela é muito boa de ler,
e impressionado com a criatividade literária do autor. O narrador se nocauteou,
as suas reflexões foram chacoalhadas, mas permanecem vivas como uma árvore
agitada pelo vento.
Cometi um grande engano ao identificar o autor do texto pelo estilo do escritor. O estilo pode ser parecido, mas o autor é Omar de Moura Luz como corrigido.
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