Erly Cardoso Teixeira[1]
O Ministério da
Educação e Cultura (MEC) divulgou em setembro de 2016 os resultados do Índice
de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de 2015. Os 15,5 milhões de alunos
do Ensino Fundamental anos iniciais (1o ao 5o ano)
ultrapassaram a meta prevista de 5,2 e atingiram 5,7 pontos.
Foi o único resultado
bom, pois os 12,4 milhões de alunos do Ensino Fundamental anos finais (6o
ao 9o ano) obtiveram 4,5 pontos no Ideb, quando a meta eram 4,7
pontos. O Ensino Médio, etapa da
educação básica, com 8,0 milhões de alunos em escolas públicas e privadas, 97,1
% vinculados à rede pública estadual, deveria atingir a meta de 4,3 pontos no Ideb,
tendo alcançado apenas 3,7. Esse é o mesmo resultado de 2011 e apenas um pouco
melhor do que o de 2005, de 3,4.
Outra divulgação com
resultado devastador é o do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) de
2015. Os estudantes do Ensino Médio estão aprendendo, hoje, menos português e
matemática do que há vinte anos.
Completando
esse péssimo quadro para a educação básica (ensino fundamental e ensino médio)
no Brasil, foram divulgados no dia 06 de dezembro de 2016 os resultados do Programme for International Student
Assessment (Pisa). O Pisa de 2015 testou cerca de 540 mil estudantes de 15
anos de idade em 72 países. Estudantes com 15 anos de idade, no Brasil, cursam
o Ensino Fundamental anos finais (6o ao 9o ano). Entre as
72 nações, o relatório mostrou o Brasil na 63ª posição em ciências, na 59ª
em leitura e na 66ª colocação em matemática.
O Ministro da
Educação afirmou no lançamento dos indicadores do Ideb: “Esses resultados
demonstram a falência do Ensino Médio brasileiro e a necessidade de mudanças
imediatas”.
Ante os resultados frustrantes emitidos pelo Ideb e pelo Saeb e antecipando-se
aos resultados do Pisa, o Ministério da Educação reage lançando, no dia 22 de
setembro de 2016, um plano para o Ensino Médio, o Novo Ensino Médio. O problema desse plano é ter sido elaborado
antes de serem identificadas as causas do péssimo desempenho dos estudantes brasileiros
nas avaliações do Ideb, Saeb e Pisa. Esses resultados mostram que nossos
estudantes aprendem pouco e retêm quase nada do que aprendem, mas não dizem por
que isso acontece. Assim, é preciso descobrir as causas desse insucesso e
atacá-las.
As publicações da literatura sobre a “Pirâmide de
Retenção do Aprendizado” ajudam muito a identificar esses fatores. Os artigos publicados, tratando do tema aprendizado nas
escolas, informam que alunos submetidos a aulas apenas expositivas aprendem,
quando muito, 10% do conteúdo oferecido, e o que aprendem, eles retêm por muito
pouco tempo. Já os estudantes que tiveram aulas práticas ou a
oportunidade de ver o conceito acontecendo acumulam 30% de conhecimento e retêm
esse conhecimento por muito mais tempo. Mas, se ao aluno for oferecida a
oportunidade de discutir e trabalhar com o conceito, isto é, de realizar
experimentos, ele aprende, em média, 75% do conteúdo, e o recorda pelo resto da
vida. E o melhor, pode aplicá-lo em exames de acesso ao ensino superior, em atividades profissionais e em inovações.
No Brasil, mais de 90% das aulas ministradas no
Ensino Básico são unicamente expositivas. Isto é, o aluno apenas ouve o professor explicando
os conceitos na lousa ou via apresentações projetadas. Portando, aprende, no máximo, 10% do que lhe é
ensinado.
Nos últimos dez anos, na minha classe de 40 alunos
de graduação, nos minutos finais de uma das aulas do semestre, fiz sempre as
mesmas duas perguntas. A primeira: quem teve, no Ensino Médio, aulas práticas
semanais no conjunto das disciplinas - física,
química, matemática, biologia e geografia? A melhor resposta que obtive foi somente de
um aluno entre os 40. A
segunda pergunta é: quem teve, no Ensino Médio, aulas práticas semanais em,
pelo menos, uma das disciplinas - física, química, matemática, biologia e
geografia?
Apenas uma vez, em dez anos, cinco alunos levantaram a mão. Nos outros
anos, nunca mais de dois alunos diziam ter tido demonstrações práticas em uma
ou outra disciplina. Essa informação
confirma que mais de noventa por cento (90%) do conteúdo do Ensino Médio é apresentado
aos alunos apenas na forma expositiva, o que explica o mau desempenho nos testes e o
alto grau de evasão ou a demora na conclusão dos cursos. Aprender apenas via
aulas expositivas é cansativo, dispersivo e frustrante.
Os elementos acima sugerem
que a causa principal do insucesso dos nossos estudantes está na forma de
apresentação das disciplinas: expositiva, apenas no quadro negro, verde ou
branco.
O que há de novo no plano para o Ensino Médio? Ele ataca o principal problema da aprendizagem
no Brasil, a apresentação apenas expositiva dos conteúdos? Os principais destaques do plano para o Novo
Ensino Médio são apresentados abaixo. Primeiro, maior investimento (promessa de
R$1,5 bilhão) e ênfase em escolas em tempo integral. Isso é essencial para melhorar a apresentação
dos conteúdos e para que se tenham aulas práticas nas escolas. Segundo, o Ensino Médio oferecerá formação
técnica (científico) e profissional simultaneamente. Espera-se que essa oferta
seja simultânea, mas não está clara no plano.
Serão no mínimo oito e no máximo trinta escolas por estado. Ora, isso é
um plano piloto, parece mais um teste que uma ação para solucionar o problema.
Terceiro, flexibilização do currículo. Serão ofertadas quatro áreas de estudo:
linguagem, matemática, ciências da natureza e ciências sociais e humanas. Isso
é apenas uma alteração no conteúdo e gera mais polêmica do que contribuição
para melhorar o Ensino Médio. Quarto, o Novo Ensino Médio estabelece a
ampliação gradual da jornada escolar para 2.400 horas, isto é, escolas em tempo
integral.
Portanto, esse plano não enfatiza a mudança na forma de
apresentação das disciplinas, de expositivas para expositiva
demonstrativa. Pode contribuir para
alguma melhora nos resultados das avaliações, talvez permitindo chegar aos
resultados de aprendizagem obtidos há vinte anos. Mas a sociedade brasileira
deseja que nossos estudantes recebam ensinamento de qualidade, atinjam grau de
excelência e sejam classificados entre os melhores do mundo.
Atingir
esse objetivo requer um plano que contemple: escolas em tempo integral;
adaptação do currículo escolar; treinamento de professores para ministrar aulas
demonstrativas; adaptação e, até mesmo, construção de salas de aula e\ou
laboratórios para aulas práticas; oficinas para treinamento dos futuros
profissionais; aquisição de equipamentos; contratação de professores com a
qualificação adequada; e remuneração de professores condizente com sua
qualificação e com o tempo dedicado ao ensino.
Aplicadas
as sugestões apontadas acima, melhores estudantes do ensino fundamental
chegarão ao ensino médio, e melhores alunos do ensino médio irão cursar o terceiro
grau. Aqueles estudantes do ensino
médio que não conseguirem acesso a um curso superior ou que não quiserem continuar
estudando terão, contudo, maiores oportunidades no mercado de trabalho.

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