Na primeira linha das anotações, aparecem, nessa ordem, o número do livro lido, a data em que terminei a leitura, o título do livro e o nome do autor.
858 (15-07-2022) – As brasas – Sándor Márai
Li a versão traduzida do italiano
para o português, mas antes o livro foi vertido do húngaro para o italiano. O
romance preserva a imagem do leste europeu do fim do Século XIX descrita por
Tolstoi, Gogol, Sienkiewicz entre outros.
A história dessa novela está amarrada à caçada ocorrida no dia dois de
julho de 1899 quando Konrad, o melhor amigo de Henrik, às suas costas, apontou
a arma para matar seu maior amigo, mas esposo da mulher que ele amava. Henrik sentiu o gesto, não o viu, mas
percebeu quando o ex-amigo desistiu de matá-lo e retornou com o fuzil para a
posição de espera, apontando-o para o chão.
No dia seguinte Henrik e Krisztina, sua esposa, chegam separados, com
pequena diferença de tempo, à casa de Konrad e ficam sabendo que ele viajou
para o sudeste asiático em missão militar. Krisztina diz saindo:
– Era mesmo um covarde!
Esta
exclamação referia-se a sua falta de coragem para matar o amigo, ou para
levá-la consigo para o Oriente? Henrik refugiou-se
no pavilhão de caça e nunca mais falou com Krisztina que continuou vivendo no
castelo até sua morte doze anos depois.
Quarenta e um anos após a fuga de
Konrad, Henrik recebe um bilhete dele solicitando dialogarem. Henrik o recebe na ala nobre do castelo com a
cortesia devida a um visitante ilustre. Após o jantar, Henrik quer respostas
para suas dúvidas e avança até a madrugada em um monólogo em que reflete e
filosofa sobre a amizade, a fidelidade e a traição. Também recorda a infância e
a juventude com o amigo na escola militar de Viena, o casamento e a viagem de
um ano pelo mundo e sua vida até esse último encontro com Konrad. Seu interlocutor apenas concorda, pois os
argumentos do amigo abarcam todas as possíveis respostas. Henrik apenas repete
os argumentos que durante quarenta e um anos ocuparam seus pensamentos e lhe
oferecem todas as explicações. A
vingança verbal pela qual esperou por tão largo tempo, Henrik a desfaz
concluindo que ele e Konrad traíram Krisztina, mais do que ela a eles. Konrad
por abandoná-la e aos seus sonhos, e ele, Henrik, por não a buscar para ouvir
seus argumentos nos doze anos anteriores a sua morte.
Muito bom livro!

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