quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

O homem que amava os cachorros – Leonardo Padura

Na primeira linha das anotações, aparecem, nessa ordem, o número do livro lido, a data em que terminei a leitura, o título do livro e o nome do autor. 

768 (28-11-2015) – O homem que amava os cachorros – Leonardo Padura

            Inicio essa resenha com os comentários de Frei Betto apresentados no início do livro.  “Essa premiadíssima obra do cubano Leonardo Padura, traduzida para vários idiomas, é e não é uma ficção. Aborda um fato real: após cumprir pena pelo assassinato de Leon Trotski na Cidade do México, Ramón Mercader refugia-se em Cuba.
            Padura narra a trejetória do homem que nunca falou e que, como militante comunista, recebeu a tarefa de eliminar Trotski.  Descreve sua adesão ao Partito Comunista espanhol, o treinamento em Moscou, as mudanças de identidade e os artifícios para ser aceito na intimidade do líder soviético.
            Este romance é como um espelho retrovisor que permite ao leitor mirar, com olhos críticos, as contradições do socialismo e porque a morte de Trotski, decidida por Joseph Stalin, contribuiu para a queda do Muro de Berlim e o desaparecimento da União Soviética.
            Mesmo para quem não se interessa pelos fatos históricos, subjacentes à narrativa de Padura, sua escrita impele a uma tensão permanente em torno dos preparativos para a realização de um crime de repercussão mundial.  São três histórias que se entrecruzam e têm como cenário União Soviética, Espanha, Turquia, França, México e Cuba.  O homem que amava os cachorros é uma primorosa obra literária, impactante, que retrata as contradições das utopias libertárias que moveram o século XX e expõe os dilemas do mundo em que vivemos”.
            Agora apresento o meu resumo.  O livro se inicia na Havana de 2004 com as palavras “Descanse em paz” no enterro de Ana, esposa de Ivan que morreria três anos depois quando o teto de seu quarto lhe caiu em cima, na sua deteriorada residência nessa mesma Havana.   Ivan deixa de herança, para seu amigo Daniel, os originais de um livro escrito a partir das revelações de um velho que ele encontrara na praia se divertindo com seus dois cães de raça russa.  Esse encontro propiciou outros encontros durante os quais esse senhor foi narrando a Ivan a estória de um amigo já falecido, mas que, pelos detalhes, Ivan reconhece que pertenciam a esse mesmo velho.  Aos poucos, sabe-se que esse velho era Ramón Mercader, o homem que amava os cachorros, mas que em 21 de agosto de 1940 acertara a cabeça de Trotski com uma picareta que o levou à morte no dia seguinte.  A partir dessa narrativa e pesquisas em diversas fontes, Ivan faz anotações que se transformam no livro que ele deixa ao amigo Daniel.  Mas a estória e a história narradas nesse livro começam em 1905, quando Trotski e Lênin construíam a revolução bolchevique de 1917.   Com todas as dificuldades, devido à pressão dos exércitos americanos, ingleses, franceses e japoneses que não queriam a vitória dos revolucionários russos, os bolcheviques, a revolução avançava a partir das vitórias do exército vermelho criado e comandado por Trotski.  Mas Lênin morre em 1924 e assume o poder Joseph Stalin.  Discordâncias internas de um Trotski que via o futuro da revolução na sua internacionalização e do governo que centrava sua atenção no governo doméstico, mais fácil de concentrar esforços e poder, causaram a destituição de Trotski de todos os poderes e de seu exílio, inicialmente para o Cazaquistão, depois para a Turquia, para a Noruega e finalmente para o México, onde seria assassinado.  Ao longo da narrativa e do desenrolar das tramas como o do Julgamento de Moscou, do apoio da União Soviética à Guerra Civil espanhola, da vida em Cuba e da influência de Moscou na esquerda internacional, o que mais se destaca são as mentiras, os falsos apoios, as prisões injustificadas, as torturas para que o torturado revele o que o torturador lhe obriga a confessar, as decisões de quem deve viver sob o terror do medo ou deve morrer.  Stalin teria matado mais de 20 milhões de russos nas prisões geladas do arquipélago Gulag na Sibéria, nos paredões de fuzilamento, nas salas de tortura e por encomenda como a morte de Trotski e tantos outros como seus dois filhos e inúmeros amigos e simpatizantes de suas ideias. 

            Fica-me a impressão de que o exposto nesse livro deve cobrir de vergonha todos os que acreditaram, em alguma medida, no comunismo e no socialismo russos. Pior para os que creram no comunismo e no socialismo exportados pela União Soviética.  E o arrependimento irremediável dos que prenderam, torturaram, mataram, roubaram e lutaram em nome da falsidade comunista ou socialista e da ilusão propagandeada pelo regime soviético?  Esse livro não deixa pedra sobre pedra dessas ruínas que foram a União Soviética e o comunismo propalado por ela.

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