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(28-11-2015) – O homem que amava os cachorros – Leonardo Padura
Inicio essa resenha com os
comentários de Frei Betto apresentados no início do livro. “Essa premiadíssima obra do cubano Leonardo
Padura, traduzida para vários idiomas, é e não é uma ficção. Aborda um fato
real: após cumprir pena pelo assassinato de Leon Trotski na Cidade do México,
Ramón Mercader refugia-se em Cuba.
Padura narra a trejetória do homem
que nunca falou e que, como militante comunista, recebeu a tarefa de eliminar Trotski. Descreve sua adesão ao Partito Comunista
espanhol, o treinamento em Moscou, as mudanças de identidade e os artifícios
para ser aceito na intimidade do líder soviético.
Este romance é como um espelho
retrovisor que permite ao leitor mirar, com olhos críticos, as contradições do
socialismo e porque a morte de Trotski, decidida por Joseph Stalin, contribuiu
para a queda do Muro de Berlim e o desaparecimento da União Soviética.
Mesmo para quem não se interessa
pelos fatos históricos, subjacentes à narrativa de Padura, sua escrita impele a
uma tensão permanente em torno dos preparativos para a realização de um crime
de repercussão mundial. São três
histórias que se entrecruzam e têm como cenário União Soviética, Espanha,
Turquia, França, México e Cuba. O homem que amava os cachorros é uma
primorosa obra literária, impactante, que retrata as contradições das utopias
libertárias que moveram o século XX e expõe os dilemas do mundo em que
vivemos”.
Agora apresento o meu resumo. O livro se inicia na Havana de 2004 com as
palavras “Descanse em paz” no enterro de Ana, esposa de Ivan que morreria três
anos depois quando o teto de seu quarto lhe caiu em cima, na sua deteriorada
residência nessa mesma Havana. Ivan
deixa de herança, para seu amigo Daniel, os originais de um livro escrito a
partir das revelações de um velho que ele encontrara na praia se divertindo com
seus dois cães de raça russa. Esse
encontro propiciou outros encontros durante os quais esse senhor foi narrando a
Ivan a estória de um amigo já falecido, mas que, pelos detalhes, Ivan reconhece
que pertenciam a esse mesmo velho. Aos
poucos, sabe-se que esse velho era Ramón Mercader, o homem que amava os
cachorros, mas que em 21 de agosto de 1940 acertara a cabeça de Trotski com uma
picareta que o levou à morte no dia seguinte.
A partir dessa narrativa e pesquisas em diversas fontes, Ivan faz
anotações que se transformam no livro que ele deixa ao amigo Daniel. Mas a estória e a história narradas nesse
livro começam em 1905, quando Trotski e Lênin construíam a revolução
bolchevique de 1917. Com todas as
dificuldades, devido à pressão dos exércitos americanos, ingleses, franceses e
japoneses que não queriam a vitória dos revolucionários russos, os bolcheviques,
a revolução avançava a partir das vitórias do exército vermelho criado e
comandado por Trotski. Mas Lênin morre
em 1924 e assume o poder Joseph Stalin. Discordâncias
internas de um Trotski que via o futuro da revolução na sua internacionalização
e do governo que centrava sua atenção no governo doméstico, mais fácil de
concentrar esforços e poder, causaram a destituição de Trotski de todos os
poderes e de seu exílio, inicialmente para o Cazaquistão, depois para a
Turquia, para a Noruega e finalmente para o México, onde seria assassinado. Ao longo da narrativa e do desenrolar das
tramas como o do Julgamento de Moscou, do apoio da União Soviética à Guerra
Civil espanhola, da vida em Cuba e da influência de Moscou na esquerda
internacional, o que mais se destaca são as mentiras, os falsos apoios, as
prisões injustificadas, as torturas para que o torturado revele o que o
torturador lhe obriga a confessar, as decisões de quem deve viver sob o terror
do medo ou deve morrer. Stalin teria
matado mais de 20 milhões de russos nas prisões geladas do arquipélago Gulag na
Sibéria, nos paredões de fuzilamento, nas salas de tortura e por encomenda como
a morte de Trotski e tantos outros como seus dois filhos e inúmeros amigos e
simpatizantes de suas ideias.
Fica-me a impressão de que o exposto
nesse livro deve cobrir de vergonha todos os que acreditaram, em alguma medida,
no comunismo e no socialismo russos. Pior para os que creram no comunismo e no
socialismo exportados pela União Soviética.
E o arrependimento irremediável dos que prenderam, torturaram, mataram,
roubaram e lutaram em nome da falsidade comunista ou socialista e da ilusão
propagandeada pelo regime soviético?
Esse livro não deixa pedra sobre pedra dessas ruínas que foram a União
Soviética e o comunismo propalado por ela.
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