sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

O ENSINO DO PRIMEIRO E SEGUNDO GRAUS TEM SOLUÇÃO

O ENSINO DO PRIMEIRO E SEGUNDO GRAUS TEM SOLUÇÃO
Erly Cardoso Teixeira[1]

            Todo o gasto público com a educação de primeiro e segundo graus no Brasil só faz os alunos aprenderem vinte por cento do que lhes é ensinado.  Oitenta por cento dos recursos aplicados e do tempo dos professores e alunos dedicado ao aprendizado é perdido.  Isto acontece porque tudo que os alunos aprendem lhes é ensinado no quadro negro; não têm aulas práticas, não têm equipamentos ou laboratórios.  Eles aprendem apenas ouvindo o professor.  Os alunos do primeiro e segundo graus não veem, não manipulam, não trabalham os conceitos, e por isso, retêm muito pouco do que lhes é ensinado. 
O artigo premiado publicado por Mark E. Campbell, professor do Department of Aeronautics and Astronautics, da University of Washington, em 1999, no  Journal of Engineering Education com o título “Oh, now I get it!” às páginas 380-383 confirma uma parte do que foi afirmado acima quando reporta o seguinte resultado: alunos submetidos a aulas apenas expositivas apreendem apenas vinte por cento do conteúdo oferecido e o que aprendem retêm por muito pouco tempo. Por exemplo, o que lembramos do conceito de eletricidade que nos foi oferecido no quadro negro nas aulas de física do segundo grau? Muito pouco ou nada.   Já os alunos, que tiveram aulas práticas ou a oportunidade de ver o conceito acontecendo, isto é, no caso do nosso exemplo, o processo de geração e armazenamento de eletricidade via pequeno gerador e bateria, acumulam mais 30 por cento de conhecimento sobre eletricidade e retêm esse conhecimento por muito mais tempo.  Mas, se ao aluno for oferecida a oportunidade de discutir e trabalhar com o conceito, isto é, de realizar experimentos e fazer o relatório sobre o fenômeno ou conceito, ele aprende mais 40 por cento e o recorda pelo resto da vida.  E o melhor, pode aplicá-lo em exames de acesso ao terceiro grau, em atividades profissionais e em inventos.  Mas os estudantes brasileiros do primeiro e segundo graus recebem apenas aulas expositivas, aprendem apenas por ouvir o que lhes é ensinado no quadro negro.
A outra parte da afirmação oferecida no primeiro parágrafo é confirmada pelo experimento que apresento a seguir.  Nos últimos dez anos, na minha classe de 40 alunos de graduação, nos dez minutos finais de uma das aulas do semestre, faço sempre as mesmas duas perguntas.  A primeira, quem teve no segundo grau, aulas práticas semanais nas disciplinas: física, química, matemática, biologia e geografia?  A melhor resposta que tive foi de um aluno em 40; na maioria dos anos nenhum estudante levantou a mão.  A segunda pergunta, quem teve no segundo grau, aulas práticas semanais em, pelo menos, uma das disciplinas: física, química, matemática, biologia e geografia? Apenas uma vez em dez anos, cinco alunos levantaram a mão; nos outros anos, eu ficava feliz quando dois alunos diziam ter tido demonstrações práticas em uma ou outra disciplina.   Esses resultados evidenciam que os alunos de primeiro e segundo graus recebem apenas aulas expositivas e aprendem apenas vinte por cento de tudo que lhes é ensinado.  Para mim é decepcionante e lamentável confirmar a cada ano que os problemas no ensino do segundo grau, que eu cursei na década de 1960, continuam os mesmos quase cinquenta anos depois.  Esse experimento explica também os medíocres resultados obtidos por nossos alunos nos testes do Program for International Student Assessment (PISA), da OECD, quando entre 65 países (sistemas de ensino), os estudantes brasileiros são classificados entre os últimos sexagésimos; melhor apenas que os alunos de dois ou três países reconhecidamente com péssimo sistema educacional.  Esses resultados explicam também o alto grau de evasão ou a demora na conclusão dos cursos.  Aprender apenas via aulas expositivas é cansativo, dispersivo e frustrante.
A solução para a questão descrita acima está em oferecer aos alunos a oportunidade de ver e trabalhar os conceitos em aulas práticas.  Isto requer escolas em tempo integral; adaptação do currículo escolar; treinamento de professores; adaptação e, até mesmo, construção de salas de aula e\ou laboratórios para aulas práticas; construção de novas escolas e remuneração de professores condizente com o maior tempo dedicado ao ensino.
     O ensino de segundo grau tem outro defeito grave, o de preparar os alunos exclusivamente para fazerem as provas do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) ou dos vestibulares de acesso aos cursos superiores.  O aluno, que não consegue acesso a um curso superior, vê-se constrangido a enfrentar o mercado de trabalho com o pouco que aprendeu em aulas expositivas sobre português, matemática, química, física, biologia, geografia e história.  Mas, o mercado de trabalho está interessado em profissionais com treinamento em informática, em instalação elétrica, em instalação hidráulica, em construção civil, em técnicas siderúrgicas, metalúrgicas e agrícolas. 
Tem-se, portando, um conflito.  Os egressos do segundo grau não estão preparados para atender as demandas do mercado de trabalho e o mercado de trabalho demanda muito pouco do conhecimento adquirido pelos estudantes que concluíram o segundo grau.
A solução para esse problema está em transformar todas as escolas de segundo grau em escolas que ofereçam o ensino médio científico simultaneamente com o ensino profissionalizante.  O que essa mudança requer?  Primeiro, escolas de ensino médio em tempo integral com adequação dos programas analíticos; segundo, treinamento de professores; terceiro, as comunidades próximas às escolas de ensino médio, escolhem uma ou mais profissões para serem ensinadas; quarto, construção de laboratórios, salas de aulas práticas e oficinas para treinamento dos futuros profissionais; quinto, aquisição de equipamentos; e sexto, contratação de professores com a qualificação adequada. 
Aplicadas as duas soluções apontadas acima, melhores estudantes do primeiro grau chegarão ao segundo, e melhores estudantes do ensino médio irão cursar o terceiro grau.   Aqueles estudantes do segundo grau que não conseguirem acesso a um curso superior ou que não queiram continuar estudando para obterem um diploma de curso superior terão maiores oportunidades no mercado de trabalho.
A aplicação dessas duas soluções requer investimento, coordenação e decisão administrativa e política, mas protelar a sua aplicação é de todo indesejável.  A sociedade brasileira não suporta mais o argumento de que se investe muito em educação, quando é do conhecimento geral que se gasta mal. É preciso conclamar a população para um novo programa de ensino para o país e enfrentar a questão da educação. Ou se faz isso agora, ou iremos, no futuro, lamentar décadas perdidas por omissão e falta de iniciativa para resolver um problema cuja solução é conhecida.




[1] Professor Titular Voluntário da Universidade Federal de Viçosa

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