Foram sete anos de pesquisa, de busca de documentos e
entrevistas com guerrilheiros, moradores da região da luta armada, e com
militares envolvidos, para escrever esse livro.
É muito bom de ler, graças ao conteúdo atraente, cronológico e à
história pouco conhecida.
A revolução de 1964 levou a uma ditadura militar de vinte
um anos, encerrada em 1985. A democracia foi reduzida à eleição de deputados e
senadores de dois partidos, um pró- ditadura, a ARENA, e outro de oposição, o
MDB. Os outros partidos foram extintos, assim como, os direitos políticos. O
Partido Comunista do Brasil, PCdoB, favorável à tomada do poder pela luta
armada, foi banido e seus membros perseguidos. O PCdoB surgiu em 1962 liderado
por João Amazonas, Maurício Grabois, Ângelo Arroyo, Pedro Pomar e Elza Monerat favoráveis
à tomada violenta do poder nos moldes da revolução chinesa. O PCB, também
Partido Comunista do Brasil, surgiu em 1922, mas em 1962 era encabeçado por
Luiz Carlos Prestes, Giocondo Dias e Astrogildo Pereira, e era favorável ao
caminho pacífico, sob a orientação russa de Kruschev. A partir de 1962 cada
sigla tomou o seu destino. O Ato
Institucional no. 5, AI-5, baixado por Costa e Silva em 13 de
dezembro de 1968, permitia a cassação de mandatos políticos, a suspensão dos
direitos civis e a censura. Agentes da repressão prendiam, torturavam e matavam
os opositores do governo militar.
Alguns segmentos da esquerda enveredaram pelo caminho da
luta armada para enfrentar a ditadura. O
PCdoB, confiante nos resultados da revolução chinesa que tomou o poder em 1949,
organizou uma estrutura para fomentar a guerrilha rural na região do Bico do
Papagaio, área de 6.500 km2 no extremo norte de Goiás, hoje Tocantins,
entre os rios Araguaia e Tocantins. Na prática, a área da guerrilha se limitou
ao sudeste do Pará, região ao sul da Transamazônica e arredores da Serra das
Andorinhas, com bases próximas ao rio Araguaia.
Os líderes do PCdoB, João Amazonas, Ângelo Arroyo, Elza
Monerat, Maurício Grabois e membros clandestinos do partido cooptavam líderes
estudantis filiados ao partido ou perseguidos por suas ações políticas para
lutar na selva do Araguaia. Os primeiros
guerrilheiros chegaram ao Araguaia em 1966, mas foi a partir do AI-5, em 1969
que muitos jovens engrossaram a guerrilha. Há informações referindo-se a 92
guerrilheiros.
O exército brasileiro tinha vagas notícias de que um
grupo guerrilheiro se formava na área desde 1970. Em novembro desse ano
executou a Operação Carajás com movimento de tropas na mata, voos de
helicóptero, lançamento de paraquedistas nos vilarejos e até atiraram bombas
nas clareiras ou posses para adquirirem algum conhecimento sobre os guerrilheiros
e até mesmo para amedrontá-los e à população. Em agosto de 1971 realizou a
Operação Mesopotâmia na divisa de Goiás com o Maranhão. Essa operação visava
outros grupos armados e só se soube dela no Araguaia porque o médico, João
Carlos Haas Sobrinho, o Dr. Juca, que se tornaria um dos mais populares
militantes do PCdoB no Araguaia chegou espantado de Porto Franco (MA). Operações
de informações, como as Peixe I, II, III, IV e V, e a sub Operação Cigana foram
montadas com pequeno número de agentes, 7 a 20, a partir da prisão do ex-guerrilheiro
Pedro Albuquerque, em fevereiro de 1972, e das informações arrancadas dele sob
tortura. Foram enviadas equipes de agentes de informação para averiguar as
informações do preso e obter outras. Movendo-se fardados pelos povoados e até
mesmo posses, perguntando pelos paulistas ou comunistas se denunciavam. Ampliaram
as informações, mas eram incompletas.
A
Operação Papagaio tem a missão de acabar com a guerrilha e para isso mobiliza
mais de três mil homens, treze aviões e quatro helicópteros. Pretendiam também competir
com os comunistas realizando Ações Cívico Sociais, Aciso, com médicos,
dentistas, professores, estudantes do Projeto Rondon, e agentes sociais
providenciando registros de crianças e adultos, carteiras de identidade e de
trabalho. O resultado final dessa operação foi frustrante para os militares, treze
guerrilheiros mortos e dez presos; entre os militares foram cinco mortos e sete
feridos. A operação durou 23 dias, de 10-07 a 03-10-72. Para os comunistas, mesmo
combalidos pelas mortes de companheiros até da Comissão Militar, depósitos de
suprimentos destruídos, falta de reposição de armamento; os militares não se
retiraram, mas fugiram espavoridos.
A
Operação Sucuri começou no dia 14 de maio de 1973 com 32 agentes vestidos a
paisana e vinte e um civis, a maioria moradores, com a incumbência de se
infiltrar na população como bodegueiros, mascates, agentes do Incra, DNER,
SUCAM (Superintendência de Combate à Malária) e posseiros para descobrir toda a
rede de apoio aos guerrilheiros.
Mapearam detalhadamente a região. Tinham ordens de apenas colher
informações e não poderiam prender qualquer comunista, mesmo Osvaldão, o
comandante do Destacamento B, negro, 1,98 de altura, extrovertido e amigável
era o líder mais conhecido e reverenciado pelos guerrilheiros e pelos habitantes
dos povoados, e temido pelos soldados. Ele e o companheiro Cilon Brum
encontraram uma patrulha de investigadores; os dois lados abriram fogo. O cabo
Rosa morreu e outro militar ficou ferido. O Exército, temeroso dos
guerrilheiros e despreparado para essa eventualidade, demorou dez dias para
resgatar o corpo da mata. Osvaldo Orlando da Costa, mineiro de Passa
Quatro, chegou ao Araguaia em 1966, fugindo da repressão aos filiados do PCdoB,
após retornar do curso de Engenharia Mecânica na Checoslováquia e passar por
treinamento militar na China. Foi morto por um mateiro nos últimos dias da guerrilha
quando descansava extenuado encostado num tronco. Seu corpo foi amarrado a um
helicóptero e, dependurado pelos pés, exposto em sobrevoo às populações dos
povoados e das cidades de São Geraldo do Araguaia e Xambioá.
Na
Operação Sucuri havia uma rede bem estruturada para colher as informações nas bodegas;
os informantes levavam as notícias obtidas às vendas de cada lugarejo em toda a
região da guerrilha. Os adjuntos do coordenador passavam semanalmente
colhendo-as.
No
dia 07-10-1973, um ano após a saída dos militares da Operação Papagaio,
iniciou-se a Operação Marajoara, sem prazo para terminar, com menos de 300
militares, quatro aviões e quatro helicópteros. Atacaram a área previamente
mapeada pelo sul e pelo norte. Todos os moradores apoiadores ou suspeitos de
apoiar os guerrilheiros, em cada vilarejo, foram presos; os posseiros amigos foram
aprisionados e torturados, suas casas e roças queimadas e destruídas. O medo se
espalhou pela população; extinguiu-se a rede de apoio aos guerrilheiros. Equipes
de militares comandadas por oficiais percorriam a mata em equipes de cinco, os
Grupos de Combate; de três, os Zebras; de 2, os Gorros-Pretos atacando os
comunistas.
No
início da Operação Marajoara, o PCdoB tinha 56 guerrilheiros no Araguaia; 22 no
Destacamento A; 12 no B; e 14 no C. A Comissão Militar, organização de comando
e estratégia dos guerrilheiros agia com 8 membros. O armamento era insuficiente, a munição era pouca,
não tinham segunda muda de roupa, e faltavam calçados, alguns guerrilheiros
caminhavam descalços. Foram sendo dizimados
em combate ou presos e mortos. Walquíria estava presa, os oficiais pediram aos
subordinados para saírem da base em Xambioá.
Quando eles voltaram souberam que ela havia sido levada de helicóptero
para algum lugar na Serra das Andorinhas e morta. Era a última guerrilheira na
selva.
O
livro é mais que um documentário, conta a morte do primeiro militar pelos
guerrilheiros, a fuga de combatentes, a morte de comunistas quando buscavam
comida e de como andavam maltrapilhos, famintos, desnutridos e sem roupa antes
de serem presos ou mortos na campanha final.
O
livro registra a morte de 57 guerrilheiros na mata e de três comunistas do
Comitê Central do PCdoB executados em São Paulo. Os posseiros da rede de apoio aos combatentes
foram presos, torturados, expulsos de suas glebas, e cinco deles foram mortos. Dezessete
guerrilheiros sobreviveram fugindo da guerrilha e resistindo às torturas. É
interessante a história de Michéas Gomes de Almeida, codinome Zezinho, que saiu
da área da guerrilha guiando Ângelo Arroyo, codinome Joaquim, membro da
Comissão Militar e dirigente dos comunistas, abandonando os companheiros
remanescentes sem comando, sem orientação e sem capacidade de resistir aos
militares, no início de 1974, quando já se admitia o trágico desfecho da
guerrilha. Zezinho usou sua estupenda capacidade de sobrevivência na selva, seu
treinamento militar na China, sua experiência de guia dos guerrilheiros pelos
caminhos e picadas da floresta, para conduzir Arroyo até um ponto onde se
poderia atravessar o rio Araguaia. Tomaram um ônibus para o sul. Em São Paulo, Arroyo contatou o PCdoB e
continuou militante e na direção do partido. Ele e Pedro Pomar, outro líder do
partido, foram mortos pela repressão militar em 1976, na Chacina da Lapa.
Michéas trabalhou como servente de pedreiro com uma Carteira de Identidade achada. Adotou o nome da carteira, não contatou o
partido, e ao término desse livro, vivia em Goiânia.
Entre
os militares, dois morreram em combate; três, atingidos por fogo amigo,
companheiros inexperientes que assustados atiraram nos colegas; três por causas
acidentais; um, por suicídio; e o soldado Valdir, que num dia de folga, saiu da
pensão onde estava hospedado em São Geraldo do Araguaia para comprar cigarros e
nunca mais retornou. É dado como
desaparecido. Nove militares foram feridos nos combates, entre eles o major
Lício Augusto Ribeiro Maciel e o capitão Sebastião Rodrigues de Moura, que
ficou famoso como Major Curió, apelido que adotou quando comandava a
organização do garimpo de Serra Pelada.

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